sábado, 16 de março de 2013

AONDE CHEGARÁ A IGREJA CATÓLICA COM O PAPA FRANCISCO?




“A Cúria é um corpo de homens que não entrega absolutamente nada, uma máquina governamental que controla a Igreja Católica com mão de ferro” (David Yallop).

“Muitos sermões há que não são comédia, são farsa” (Padre Antonio Vieira)


            No dia 28 de setembro de 1.978 (na verdade ele foi encontrado morto no dia 29), após 33 dias de pontificado, morria Albino Luciani, o papa João Paulo I, segundo o Vaticano, de infarto do miocárdio quando dormia. João Paulo I que 33 dias antes de sua morte havia recebido quase 90% dos votos dos cardeais no conclave que o elegeu chefe da Igreja criada por Pedro, tinha como discurso e projeto o retorno do catolicismo às suas origens: desapego de bens materiais e uma proximidade com os mais pobres, estes, os eleitos de Cristo para a salvação.

            Sua morte até hoje é cercada daqueles mistérios que só o Vaticano sabe guardar, pois em que pese ter amanhecido morto quando gozava de boa saúde, a elite do Vaticano, contra todos os pedidos em contrário, se recusou em fazer uma autópsia em Albino Luciani para saber a causa de sua morte.

            João Paulo I mesmo antes de assumir o comando da Igreja Católica já tinha conhecimento de escândalos que, então, a envolviam: corrupção no Banco do Vaticano, tendo à frente seu presidente, o cardeal americano Paul Marcinkus, Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano, e Lício Gelli, o chefão da P2, um ramo paralelo da maçonaria e secularmente a antítese dos católicos, dentre outros. Os podres no coração da Igreja tinham na disposição de João Paulo I um inimigo certo, pois Albino Luciani ao ter perto de 90% dos votos de seus pares recebera quase um cheque em branco para remover as fraudes e heresias que contaminavam o maior império religioso do ocidente.

            A eleição de Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, no último dia 13 de março, tem muita semelhança à de Albino Luciani em 1.978. Tal como João Paulo I, venceu de modo expressivo contra todos os prognósticos, sobretudo, com o discurso do revisionismo da Igreja Católica e o afastamento do fausto e a aproximação com os desvalidos, estes, segundo ele, os dignos da proteção divina. O caminho de João Paulo I não teve continuidade, pois morreu precocemente após poucos dias de papado ou, segundo o jornalista e escritor inglês David Yallop, Albino Luciani foi assassinado por envenenamento porque ia contra os interesses de certos tubarões do Vaticano.

            David Yallop lançou em 1.984, após três anos de pesquisas e investigações, o livro Em nome de Deus (Ed. Record e disponível na íntegra na internet), onde narra com detalhes a trama que levou, segundo ele, ao envenenamento de João Paulo I pela máfia da Cúria do Vaticano que tinha como cabeça Paul Marcinkus, presidente do Banco do Vaticano (David Yallop diz em seu livro que obteve informações de gente do próprio Vaticano, assim como o jornalista italiano Gianluigi Nuzzi, recentemente, ao publicar livro sobre as cartas do Papa Bento XVI).

A cobertura dada à eleição do novo Papa com os atuais recursos tecnológicos da mídia, mostrou ao público mundial aquilo que muitos sabiam, mas que não têm uma noção mais exata da instituição mais antiga do mundo ocidental. As peculiaridades da Igreja Católica nas suas ações e nos seus dogmas não explicam à luz da lógica comum, como uma instituição fruto da criação humana chegou tão longe. O discurso da Igreja, que parece estar sempre na contramão da história – controle de natalidade, aborto, divórcio, celibato, proibição de uso de preservativos – por mais paradoxal que pareça, é umas das razões de sua longevidade. Disciplina, hierarquia, obediência e renúncia à sucessão hereditária, completam a receita da sobrevivência da Igreja nesses mais de dois mil anos, o que levou Bertrand Russel a dizer que “Há uma grande instituição que jamais teve qualquer elemento hereditário: a Igreja Católica. Podemos esperar que as ditaduras, se sobreviverem, desenvolvam, aos poucos, uma forma de governo análoga à da Igreja”.

Joachim Fest em sua biografia, “Hitler”, disse que o ditador nazista ao fincar as primeiras estacas do Terceiro Reich se espelhou na disciplina e hierarquia da Igreja Católica como receita para aquele deveria ser o império de mil anos.

O discurso da renúncia material - preceito cristão alimentado ao longo de milênios - em contraposição à pompa e circunstância que a Igreja ostenta,  no entanto, talvez seja um dos poucos pontos que põe em xeque os postulados espirituais que cercam o reino de Pedro e seus sucessores.

            E esse tem sido um ponto que tem dividido nos últimos anos a Igreja entre aqueles que a querem próxima dos pobres, retornando às suas origens, e aqueles que insistem no poder sacro imperial do Vaticano. A eleição de Francisco, o novo papa, restabelece um liame com João Paulo I, papado esse preenchido pelo hiato de João Paulo II e Bento XVI. Ambos, João Paulo I e Francisco, com uma clara noção de que a Igreja deve ser uma nave de condução espiritual de seus mais de 1 bilhão e 200 milhões de fiéis; ambos com a consciência de que a Igreja, por mais milenar que seja, está perdendo terreno para os enxames das pentecostais que, ainda que tragam no seu bojo uma prática mercantilista da fé, embalam o discurso da salvação da alma; ambos querendo que a Igreja faça da máxima de Cristo, “repartir o pão e o vinho igual para todos”, não um retórica, mas, uma prática.

            Mas a Igreja, se são verdadeiras as conclusões de Yallop em sua obra, é tão humana quanto qualquer outra instituição, com seus podres e suas virtudes. E nela sempre existiu uma queda de braço entre uma maioria dos cardeais que elegeu João Paulo I e Francisco e aquela minoria que domina os bastidores do Vaticano. Ontem Paul Marcinkus, hoje Tarciso Bertoni, este, segundo os vaticanólogos, o responsável pela renúncia de Bento de XVI que, sabendo da podridão que vai de corrupção financeira ao acobertamento de pedofilia praticada por padres em várias paróquias do mundo, não teve forças para enfrentá-lo.

            A eleição do Papa Francisco, nome escolhido em homenagem a São Francisco de Assis, o santo das renúncias materiais e amigo dos pobres, prometendo uma nova Igreja e novos rumos, tem uma semelhança incrível com o Papa João Paulo I. Os dois de origem humilde e com discurso da aproximação da Igreja aos mais pobres. Mas, aonde chegará a Igreja Católica com o Papa Francisco? Ler o livro Em nome de Deus, de David Yallop, parece nos transportar para um futuro previsível, quando ele diz – e assusta – que “A história do Vaticano é a história de incontáveis Papas ansiosos em fazer reformas, mas contidos e neutralizados pelo sistema. Se a Igreja em geral e a Cidade do Vaticano assim o querem, podem e conseguem influenciar e afetar drasticamente as decisões papais”. É a velha constatação de Maquiavel que nas relações de poder entre os homens, sempre prevalece a vontade da minoria articulada sobre a maioria.

            Eleito um jesuíta para comandar a maior igreja do ocidente, é de se esperar se ele vá promover as reformas que suas atitudes e discursos estão a indicar ou serão barradas por aqueles que resistem às mudanças que alcancem efetivamente o lado espiritual de 1 bilhão e 200 milhões de católicos? O Papa Francisco por certo tem mente o destino que teve João Paulo I e deve estar a meditar nas palavras de seu confrade jesuíta, o Padre Antonio Vieira, que em seu Sermão da Sexagésima” já alertava: “Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre si e se resolva, não há um moço que se arrependa, não há um velho que se desengane. Que é isto? Se a palavra de Deus é tão poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, por que não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus?”.

            As palavras do padre jesuíta português foram ditas não em 2.013, mas em 1.655, e nunca elas foram tão atuais.

            Se o Papa Francisco vai conseguir impor o que seu discurso está a desejar, ninguém sabe e só o tempo dirá, pois como disse o Padre Antonio Vieira, a diferença do falso para o verdadeiro profeta só se sabe quando a profecia se realiza.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

AS INTERNAÇÕES INVOLUNTÁRIAS DA CRACOLÂNDIA, LARANJA MECÂNICA, PELÁGIO E SANTO AGOSTINHO. CONSIDERAÇÕES SOBRE O LIVRE-ARBÍTRIO.


“O Deus transcendente, no imaginário católico, deixou de ser a potência ordenadora do caos universal de que falam os primeiros católicos do Gênesis, para adequar-se à medida do homem, fonte de verdade, bondade e justiça” (Eugenio Scalfari)



            Ultimamente temos assistido pela imprensa notícias dando conta de iniciativa da prefeitura do Rio de Janeiro para internar involuntária e compulsoriamente viciados em crack naquela cidade. À medida que num primeiro momento a ação estatal possa levar à aprovação das pessoas que querem o bem de seus semelhantes, ao mesmo tempo essa aprovação merece maior reflexão. Quem em sã consciência pode concordar com espetáculo tão degradante quanto o de se ver seres humanos consumindo drogas a céu aberto, sem qualquer perspectiva de vida ou futuro? Essa é a armadilha para um juízo mais apressado.

            A medida tomada pelo poder público nesse caso tem mais o caráter estético-profilático-midiático - para não dizer demagógico - do que propriamente o resgate da dignidade daquelas pessoas. O número de internações de viciados, 14, salvo engano, se não se afigura ridículo, evidencia a ineficácia da medida e a violência do Estado em dar solução a problemas de modo pontual. Em outras palavras, o poder público não quer resgatar pessoas, gente, seres humanos, mesmo porque ele não diz o que será feito com essas pessoas depois da internação; quer, sim, limpar a imagem estética de uma cidade que é cartão postal do mundo e que não pode assistir a espetáculo de degradação moral que avilta uma mente civilizada. Já se disse, ainda que de modo equivocado, as imagens chocam e falam por si.

            Dito isto, vem a indagação: até que ponto é dado ao Estado o direito de interferir na vida das pessoas a título de protegê-las, impedindo que cometam aquilo que julga ser um mal ou que ajam em desconformidade com os padrões de conduta impostos? Existe uma fronteira ética e moral, intransponível, entre o direito de o Estado punir pela ação errada do homem e a sua punição antecipada pelo impedimento de sua conduta. Essa questão não envolve somente um aspecto de ordem jurídico-médico-legal, mas e, sobretudo, de ordem ética e moral, pois interfere diretamente no livre arbítrio do ser humano. Esse tema já foi – e tem sido - objeto de discussão filosófico-religiosa entre dois personagens da Igreja Católica, Pelágio e Santo Agostinho, com reflexos no pensamento ocidental até os dias de hoje.  Foi trazido à luz de nossos tempos na imortal obra de Anthony Burgess no seu romance Laranja Mecânica e levado ao cinema pelas mãos de Stanley Kubrick.

            Para quem não leu o livro ou viu o filme Laranja Mecânica, eis aqui uma síntese do enredo desenvolvido pelo escritor inglês na sua obra e que guarda uma correlação com a internação involuntária dos viciados da Cracolândia carioca. Numa Londres situada em um tempo em que as relações humanas vão se tornando mais e mais impessoais (a escolha da cidade é meramente casuística, pois retrata a realidade da vida moderna nas grandes metrópoles ao redor do mundo) e o desprezo pelos valores éticos e morais acentuado, Burgess levanta um questionamento se o Estado tem direito de intervir nas ações humanas para impedir que o homem cometa maldades ou aquilo que é considerado mal. O personagem principal da obra é Alex, adolescente que vive na periferia de Londres (um punk londrino ou o nosso punk da periferia da música de Gilberto Gil), filho de pais operários pobres, e que durante o dia leva uma vida ociosa e a noite age com sua gangue a cometer toda sorte de crimes e violência. Alex, portanto, é o retrato da juventude excluída das sociedades modernas que Burgess previu – e parece ter acertado boa parte de sua premonição –: uma sociedade muita tecnológica, muito consumista, muito materialista, muito desumana e desprovida de valores éticos e morais.

            Preocupados com esse fenômeno socioeconômico, os cientistas ingleses desenvolvem um invento que tem por finalidade reprimir a conduta humana quando impulsionada a cometer crimes ou uma atitude que o Estado considere aética ou imoral. O Estado desenvolve e lança mão da “Técnica Ludovico”, uma referência à música de Ludwig Beethoven que será usada nos experimentos em Alex. Alex, então, é preso e submetido como cobaia a uma experiência do Estado no seu projeto de redimir a humanidade de seus erros, crimes e pecados. E a lógica do Estado para seu projeto de redenção da humanidade está estampada nas palavras do primeiro-ministro do governo que está levando adiante a “Técnica Ludovico”: “O governo não pode se preocupar com teorias penológicas datadas. Empilhe os criminosos juntos e veja o que acontece: você obtém criminalidade concentrada, crime no meio do castigo. Daqui a pouco vamos precisar de todo o espaço penitenciário que temos para agressores políticos”.

            O resultado das experiências científicas feitas em Alex é, como diz Burgess no seu romance, retirar do indivíduo qualquer direito enquanto homem a uma escolha moral. Toda vez que ele quiser agir contra os ditames do Estado, Alex será contido por sensações de náuseas e mal-estar físico. E, na advertência contra essa violência, a resposta do Estado é eminentemente utilitarista: “Não estamos preocupados com o motivo, com uma ética superior. Estamos preocupados apenas em reduzir o crime”.

            Burgess ainda que fosse um agnóstico, estabelece uma negação a essa lógica na figura do capelão do presídio onde se encontra Alex, quando aquele diz: “O que Deus quer? Será que Deus quer insensibilidade ou a escolha da bondade? Será que um homem que escolhe o mal é talvez melhor do que o homem que teve o bem imposto a si?”. Vitor Hugo faz o mesmo em Os Miseráveis, dando a Jean Valjean a proteção de um padre numa França pouco sensível aos postulados da Igreja.  Essas duas posições, assim, antagônicas, é que vão estabelecer o enredo e o epílogo da obra de Burgess, transferindo para o leitor a opção por uma delas, mas ficando claramente explícita a opção do autor de Laranja Mecânica pela do capelão do presídio.

            Ao defender seu ponto de vista de que o Estado não pode interferir de modo artificial na vida das pessoas a fim de corrigi-las, Burgess denuncia nessa atitude um comportamento totalitário, bem ao sabor de regimes e governos que querem tutelar seres humanos ao alvedrio de suas conveniências e interesses. Vê-se em sua posição uma questão transcendental, de ordem moral e ética, que se sobrepõe aos simulacros estatais na busca de conceber uma sociedade eugênica do ponto de vista comportamental. O ponto central, portanto, da sua obra é o livre-arbítrio que envolve não somente o aspecto de ordem moral, mas também de ordem religiosa. Numa entrevista dada a propósito de sua obra nos anos 1970, Anthony Burgess reafirmou sua posição, numa referência ao escritor russo Eugene Zamyatin, dissidente do stalinismo, dizendo que ”Adão não desejava ser feliz: ele queria ser ‘livre’, desejava o livre-arbítrio, isto é o direito de poder optar entre duas linhas de conduta, entre duas maneiras de agir sobre as quais soubesse fazer um julgamento moral”.

            Esse tem sido o grande dilema da humanidade: até quando o homem pode agir à luz da sua vontade? Aí entra o grande debate que se deu no âmbito da Igreja Católica entre Pelágio e Santo Agostinho e tem reflexos éticos, morais e filosóficos até os dias de hoje. Pelágio, defensor do livre-arbítrio, sustentava que o homem nascia livre de toda e qualquer amarra, sendo liberto para fazer as suas opções nas ações que iria tomar, um contraponto, portanto, na posição tomada pelo bispo de Hipona, Santo Agostinho, que defendia que o homem nascia com o pecado original, devendo assim rezar e pedir a Deus por sua salvação eterna.

            A posição de Santo Agostinho, oficializada pela Igreja, num primeiro momento é mais confortadora à alma humana, pois parte da premissa que tendo o homem nascido com o pecado original não seria completamente responsável por seus atos. A sutileza agostiniana na defesa de sua tese, no entanto, não é que o homem não seja responsável por seus atos, mas apenas que não é totalmente por eles responsável. É nessa parte da responsabilidade do homem que Deus agiria oportunizando-lhe o arrependimento por seus atos errados e lhe concederia o seu perdão. Em outras palavras, ao homem não é dado pelos seus próprios atos abster-se do pecado, pois somente com a graça divina ele pode tornar-se virtuoso. Essa posição, como dito, foi sufragada pela Igreja, pois esta entende que o homem é um ser frágil neste mundo de tormentas e tentações e, por isso, mesmo com a liberdade relativa de agir que lhe foi conferida, quando ele errar, tem contar com a intervenção divina na sua proteção.

            Depois de uma longa batalha filosófico-religiosa entre Santo Agostinho e Pelágio, prevaleceu a posição do primeiro na França, no Concílio de Orange em 529 da nossa era. E embora Santo Agostinho tenha imposto ao seu rival uma derrota de sua tese, a verdade é que o pensamento de Pelágio perdurou em boa parte do pensamento filosófico e religioso do ocidente, alcançando se não sua maior expressão na obra de Anthony Burgess, ao menos uma expressividade que o torna passível de discussões e interpretações.

            Concluindo: em Laranja Mecânica Alex depois do tratamento pela “Técnica Ludovico” tenta o suicídio, suicídio esse testemunhado pelos que leram ou viram o filme. As tragédias da Cracolândia carioca pós-internação involuntária não terão testemunhas, pois “a dor da gente não sai no jornal”, como diz uma música de Chico Buarque. Ao homem, pergunta-se, deve ser dada liberdade para agir e responder por suas consequências ou optar por uma liberdade tutelada? 

domingo, 30 de dezembro de 2012

"A RELÍQUIA" DE EÇA DE QUEIROZ E O NOSSO TEMPO


  1. “A única lei reconhecida pela fé é a do interesse naquilo em que ela vê como verdadeiro. Se o objetivo que ela persegue for absolutamente santo, ela não tem escrúpulo algum de invocar maus argumentos para sua tese, se os bons não forem convincentes. Se tal prova não é sólida, tantas outras o são!... Se tal prodígio não é real, tantos outros o foram” (Ernest Renan).




            Na virada deste Natal, 2.012, reli a obra de Eça de Queiroz, A Relíquia. Havia lido o livro há mais dez anos e na época gostei muito, pois ele sempre foi uma das minhas referências literárias na obra do imortal português. Mas, ao relê-lo, foi melhor ainda. Descobri novas passagens, novas citações, novas visões, novas descobertas, novas interpretações e, sobretudo, novas compreensões de sua identidade e relação com os tempos em que vivemos. Tempos em que procuramos suprir nossas incapacidades, fracassos e insucessos com essa religiosidade exacerbada que se manifesta de modo exponencial na vida das pessoas.

            A história se passa em meados do século 19 em Lisboa, Portugal. Tem como personagem principal, Teodorico Raposo, o Raposão, órfão de pai e mãe que é criado por uma tia e madrinha beata, d. Patrocínio das Neves. Esta, católica fervorosa, impõe uma formação católico-religiosa à criança que, por sua vez, apresenta um caráter totalmente avesso à aceitação da religião na sua vida. Não chega a ser ateu, mas debocha da crendice das pessoas e da própria tia, em verdade do Portugal piegas e carola do século 19. Raposão, além disso, alimenta uma ambição pela fortuna da tia que deseja herdar com sua morte, ao mesmo tempo em que esconde esses desejos, aliados à sua compulsão por mulheres e farras. Para herdar, no entanto, a fortuna da “titi” Patrocínio, Raposão tem de se portar como um autêntico carola, temente a Deus e infenso às “relaxações” (expressão usada por Eça, que naquele Portugal do século 19 tinha sinônimo de gandaia envolvendo mulher), tão odiadas e condenadas pela madrinha.

            Esse é o retrato preliminar que Eça faz da sociedade portuguesa daquele ano de 1.887 quando o romance foi publicado. Uma sociedade onde a religião, leia-se o catolicismo, tinha uma presença forte numa boa parte do povo português, no contraponto de posturas hipócritas que essas relações alimentam. Raposão, por assim dizer, encarna a hipocrisia e o oportunismo que os charlatães da fé se utilizam nos dias de hoje para enriquecer, e sua madrinha, a ingenuidade daqueles que têm na religião a sua tábua de salvação, desde uma unha encravada até a garantia de leito do reino de deus. Entre os dois, o charlatão e o crente - a onisciente e onipresente igreja. Qualquer semelhança com o Brasil e os tempos atuais não terá sido mera coincidência.

            Umberto Eco disse, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, que o fenômeno da religiosidade se acentua e se manifesta com mais intensidade em tempos de desenvolvimento tecnológico. O Brasil está aí para provar essa assertiva, quando se tem – em tempos de internet - um enxame de igrejas, seitas, credos e crenças de todos os matizes se proliferando através, e sobretudo, da televisão, que vocaliza e leva “a palavra de deus” até aos seus fiéis mais indiferentes, num processo de massificação e sugestionamento. Nesse sentido, o Brasil de hoje é, em certa medida, o Portugal de A Relíquia: atrasado na educação, carente em saúde e segurança, precário em infraestrutura, mas rico em religiosidade!

            Assim, o romance se desenrola. Raposão é mandado para Jerusalém para conhecer de perto a terra onde o menino Jesus nasceu e na volta trazer algo para sua tia, uma “relíquia” da Terra Santa, demonstrando, naquilo que sua hipocrisia melhor lhe poderia render, ser um falso e empedernido crente perante sua tia, para render-lhe a tão cobiçada herança. A viagem para a Terra Santa é entremeada por farras e compromissos religiosos. Numa dessas farras, em Alexandria, a caminho de Jerusalém, depois de passar uma noite com uma prostituta, Raposão ganha dela uma camisola, como lembrança dessa falsa devoção amorosa que a messalina lhe atribui. Segue viagem com essa camisola, mas na volta, temendo chegar em Lisboa com algo que macule sua religiosidade e denuncie o cheiro da sua libertinagem, desfaz-se dela no caminho. Em seu lugar, adquire na Terra Santa a relíquia da “titi”, uma coroa de espinhos, os mesmos de uma árvore em que foram retirados para pôr na cabeça de Cristo a caminho do calvário, para provar toda a sua religiosidade, sua gratidão com a madrinha e assegurar a sua herança.

            Chegando em Lisboa, inexplicavelmente o embrulho com a relíquia veio trocado com a camisola da prostituta e, ao entregá-lo à madrinha, se vê denunciado de suas infâmias e falsidades, sendo escorraçado da sua casa e deserdado de sua almejada herança. Na rua da amargura, no entanto, descobre o quanto o povo é crédulo com as coisas de deus e passa a vender com sucesso as quinquilharias que trouxera da Terra Santa: água do rio Jordão, pregos da arca de Noé, azeitonas do monte das oliveiras, pedrinhas da Via Dolorosa, conchas do lago Genesaré, rosários, bentinhos, medalhas, lascas da madeira da cruz onde Cristo foi crucificado e toda sorte de bugiganga que esteja ao alcance da credulidade humana e do bolso dos espertalhões da fé. Essa atitude é estimulada pelo trecho em que o amigo de viagem à Terra Santa, o douto Topsius, lhe diz: “As relíquias, d. Raposo, não valem pela autenticidade que possuem, mas pela fé que inspiram”. Quanto essas palavras têm dado margem a um sem-fim de fraudes e vigarices em nome da fé religiosa!

            O livro, além dessa crítica à Igreja e ao comportamento sacro do povo português, traz no entanto, trechos de sublime beleza historio-filosófico-religiosa, não se prestando tão somente a uma censura barata à exploração da fé. Sabe-se que para escrever essa obra, Eça estudou a Jerusalém do tempo de Cristo na biblioteca de Londres quando era diplomata na Inglaterra nos idos da década de 80 dos anos 1.800. O romance entremeia com a crítica mordaz própria do seu autor, uma bela descrição histórica dos costumes, das leis, do comportamento do povo judeu; do clima, da geografia, de modo detalhado e descritivo da Judéia daqueles tempos. Narra sob o ponto de vista histórico e não religioso, o porquê Cristo, contra a vontade dos romanos, foi levado à cruz como um insurreto da lei e ordem judaicas, transferindo ao leitor fazer seu próprio juízo desse fato histórico desprovido de influências e interferências sectárias.

            Traz também a obra, ao contrário dos que torcem o nariz ao ver em suas linhas uma mera crítica à Igreja e seu rebanho, belas palavras que consagram a perpetuidade da fé cristã e, ao mesmo tempo, criticam aqueles que a exploram com desonestidade em seu nome vantagens econômico-financeiras. Em um trecho do livro isso é demonstrado por Eça,  quando, após a derrocada de Raposão, num diálogo com Jesus, este lhe diz que ele fingiu-se “devoto sendo incrédulo, caridoso sendo mesquinho” e simulou “a ternura de filho tendo só a rapacidade de herdeiro... Tu foste ilimitadamente o hipócrita!”, diz Jesus a Raposão. E, num discurso transcendental e sublime, que alcança não somente a fé em si mesma, Jesus diz a Raposão: “Eu não sou Jesus de Nazaré, nem outro Deus criado pelos homens... Sou anterior aos deuses transitórios; eles dentro em mim nascem, dentro em mim duram; dentro em mim se transformam, dentro em mim se dissolvem; e eternamente permaneço em torno deles e superior a eles, concebendo-os e desfazendo-os, no perpétuo esforço de realizar fora de mim o Deus Absoluto que em mim sinto. Chamo-me a Consciência; sou neste instante a tua própria consciência refletida fora de ti, no ar, e na luz, e tomando ante teus olhos a forma familiar, sob a qual, tu, mal-educado e pouco filosófico, estás habituado a compreender-me... Mas basta que te ergas e me fites, para que esta imagem resplandecente de todo se desvaneça”.

            Que palavras mais belas poderiam ser ditas num sentido que conjugue a fé e a racionalidade da ciência e a tão pregada e pouco usada expressão dos cristãos, de que não devemos usar – como se usa - o santo nome de deus em vão?

            Mas, como A Relíquia traduz dentre outras coisas a mordacidade e ironia de seu autor, a obra pontifica o cinismo dos exploradores da fé, dos raposões da vida, quando, após ver-se desmascarado pela camisola da prostituta que pensava tratar-se de uma coroa de espinho de Jesus, o seu personagem, Raposão, invectiva: “Sim! Quando em vez de uma coroa de martírio aparecera, sobre o altar da titi, uma camisa de pecado, eu deveria ter gritado, com segurança: ‘Eis aí a relíquia! Quis fazer a surpresa... não é a coroa de espinhos. É melhor! É a camisa de Santa Maria Madalena!... Deu-ma ela no deserto...’”.

            O livro ainda faz rir. E muito. Principalmente quando em certos trechos seus personagens se confundem com a nossa classe política dos dias de hoje. Por exemplo, ao se dirigir para Jerusalém levando toda a grandeza e ufanismo de Portugal e seu povo, Raposão, depois de deparar-se com realidade dessa falsa convicção, não perde a pose e diz a um inglês em tom de despeito e ridículo: “Eu sou Raposo, dos Raposos do Alentejo”. A frase molda-se perfeitamente ao slogan patrioteiro, “brasileiro nunca desiste” e que tem se convertido na pretensão de nossos presidentes ultimamente em dar lição de moral ao mundo, quando, em missões internacionais, Lula se propõe intermediar, por exemplo, a guerra entre judeus e árabes; e Dilma, dar aula e lição de economia aos europeus. Coisas de país subdesenvolvido e com a boçalidade dos raposões.

            Embora não seja crítico literário, nem de longe, não poderia deixar de registrar esses comentários sobre essa grande obra de Eça de Queiroz, numa época em que ela se identifica com nossos tempos. Uma obra-prima que, como seu autor, estava adiante de seu tempo.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A DOENÇA DE CHAVEZ É UMA FARSA





“Devemos, em nossas relações, nos pautarmos pelo que é útil ou pelo que é honesto?” (Gabriel Tarde)


            Pode parecer uma temeridade a afirmação de que a doença de Hugo Chavez é um engodo, uma farsa. O que intriga mesmo para um observador mais atento não é propriamente a existência da doença em si, mas a forma como ela está sendo conduzida e pelas circunstâncias políticas que a cercam. Talvez seria melhor a afirmação, ou interrogação: a doença do presidente da Venezuela é mesmo grave como se tem anunciado?

            Desde que Chavez trouxe a público a sua doença em junho de 2011 (quando afirmou que havia sido operado dias antes em Cuba), o alegado câncer vem se manifestando mais politicamente do que sob o ponto de vista médico.  Em outubro deste ano consegue se reeleger presidente para um mandato até 2019, tendo como principal cabo eleitoral a exploração emotiva e sentimental de sua doença, quando sua reeleição era duvidosa. Agora, antes das eleições para os governos estaduais, ele anuncia o agravamento de sua doença a poucos dias da sua realização.

            No anúncio feito poucos dias antes das eleições dos governos dos estados na Venezuela, vimos um Chavez bem disposto dizendo à nação venezuelana que o câncer que havia antes declarado completamente vencido, voltara a se manifestar com gravidade. Disse que acaso morresse o povo venezuelano deveria apoiar seu vice-presidente e garantir a revolução bolivariana. Em seguida partiu para Cuba para ser operado.

            O que intriga nessa história da doença de Chavez é que quando ele anunciou o seu agravamento, tinha acabado de retornar de Cuba. Chega de Cuba dia 7 de dezembro, anuncia seu retorno para tratamento no dia seguinte, dia 8, e em seguida retorna à ilha de Fidel. Ganhou as eleições para os governos estaduais de barbada poucos dias depois.

            Algumas circunstâncias chamam a atenção para essa doença de Chavez. Primeiro: ele anunciou seu retorno a Cuba para tratamento pouco antes das eleições; segundo: ele havia acabado de retornar de Cuba. Se era tão grave a doença, por que ele veio constatar a sua gravidade quando estava em solo venezuelano, retornando a Cuba em seguida à sua volta?; Se era grave, por que os médicos cubanos o deixaram retornar de Cuba?; terceiro: a aparência de quem falava de uma doença grave, era a de um homem saudável que poderia perfeitamente esperar para participar das eleições que se realizariam dali a poucos dias, como fez na sua reeleição; quarto: o discurso de Chavez ao anunciar seu retorno a Cuba para tratamento - ao contrário de como reage o comportamento humano – era, não de esperança, mas de quem estaria na iminência de morrer.

            Ora, o que sabemos do estado de saúde de Chavez depois que ele retornou a Cuba tem sido veiculado pelo governo cubano. O interessante é que todas as notícias que vêm sendo dadas a respeito de sua doença são as mais pessimista possíveis, na contramão do que manda o manual do exercício do poder. Nos regimes democráticos já é tradição esconder-se o verdadeiro estado de saúde de seus governantes, sempre se anunciando o seu bem-estar, mesmo quando a situação não é essa. Nos regimes totalitários ou com restrição à liberdade de imprensa ou opinião, essa tradição é muito mais acentuada. Esconde-se a verdade do povo anunciando-lhe sempre a notícia de modo inverso ou diferente da realidade. Nesses regimes, num caso de doença de seus dirigentes, a regra é anunciar que tudo vai bem.

            Por que o governo de Cuba, então, vem anunciando sistematicamente, não só o dia a dia da doença de Chavez, como a sua gravidade? Isso, como foi dito, refoge à regra e esconde, decerto, segundas intenções. Não seria mais lógico dizer que Chavez se recupera bem, está melhorando, etc? Mas não. Faz-se exatamente o contrário. O que causa espécie, de mais a mais, de tudo o que se fala do quadro clínico de Chavez, é que tudo é veiculado pelo porta-voz do governo cubano e a imprensa mundo afora retransmite sem qualquer questionamento como isso fosse verdade. Ou seja, a imprensa livre retransmite notícias passadas de onde não se tem liberdade de imprensa e por quem sistematicamente manipula os fatos. Isso vale para Cuba, como para a Venezuela de Chavez.

            O que há de verdade e mentira nisso tudo? Gabriel Tarde, magistrado francês, 1843/1904, afirmava que “a verdade não é a justeza, é uma quantidade”, ou seja, “é a opinião pública e não uma verdade determinada”. Em outras palavras, ainda que Chavez e o governo de Cuba anunciem ao mundo a gravidade de sua doença, o seu público é o povo venezuelano.

            Pode parecer pretensão, mas vou fazer uma afirmação: o agravamento da doença de Chavez foi providenciado para ele ganhar as eleições. E vou profetizar: ele voltará em pouco tempo para a Venezuela esbanjando saúde, mesmo correndo o risco de queimar a língua e vê-lo retornar de Cuba num caixão.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A AUTOFAGIA DO PT OU A DOSE DO MENSALÃO NÃO FOI SUFICIENTE





“Há uma enorme diferença entre presumir uma opinião como verdadeira, porque, apesar de todas as oportunidades para contestá-la, ela não foi refutada, e pressupor sua verdade com o propósito de não permitir sua refutação” (John Stuart Mill)

Fico a me perguntar se alguém na imprensa brasileira - que vocaliza a vida política do país - ou alguém de bom senso não enxerga que há uma luta intestina dentro do Partido dos Trabalhadores pelo poder. Já disse antes que a condenação no julgamento do mensalão pelo STF de alguns dos seus principais próceres da seção paulista do PT – com o aval do Planalto – já era um indicativo claro dessa afirmação. As declarações do ministro Fux há poucos dias ao jornal Folha de São Paulo reafirmam essa convicção na medida em que disse que após procurar o manda-chuva José Dirceu para chegar ao STF, ainda assim votou pela sua condenação em seguida à sua nomeação por Dilma Roussef. Rosa Weber, por sua vez, foi indicação de Tarso Genro, desafeto de José Dirceu.

O Palácio do Planalto – entenda-se a seção gaúcha do PT – por certo sinalizou na condenação de José Dirceu e seus companheiros de São Paulo devendo os estilhaços alcançar o ex-presidente Lula. Não fosse assim, Fux e Rosa Weber, esta nomeada pouco antes do julgamento do mensalão por Dilma, não teriam votado pela condenação da turma de São Paulo. Essas condenações, por óbvio – e segundo Nelson Rodrigues as pessoas enxergam tudo, menos o óbvio – tinham por objetivo minar a candidatura paulistana de Hadad e atingir o ex-presidente Lula, pretenso ou virtual candidato à sucessão de sua criatura, Dilma Roussef, em 2.014. Mas a dose do mensalão não foi suficiente.

Não foi suficiente, pois ao contrário do que os “experts” (assim mesmo, entre aspas) em política previram, Lula, contra todos os prognósticos, impôs, indicou e elegeu seu poste também em São Paulo, como já fizera com Dilma Roussef. A seção gaúcha do PT avaliou que Lula perdendo em São Paulo, estaria desgastado para a eleição em 2.014. Mas como a dose do mensalão na eleição paulistana não foi suficiente, o Planalto pôs em curso a operação Porto Seguro. Nessa operação, que teve como epicentro a chefe de gabinete da presidência da república em São Paulo, o vice-rei da AGU e dois obscuros irmãos Vieira, o alvo mesmo acabou sendo Lula, padrinho e amante da primeira.

O governo jura que só soube da operação um dia antes da sua deflagração, pois, segundo o ministro da Justiça, a polícia federal é uma polícia republicana (palavra tão ao gosto no jargão petista) e não de partido, só agindo dentro da legalidade com extrema independência. Só um tolo poderia acreditar nessa versão, pois qual seria o delegado que teria peito para levar adiante uma investigação que iria acertar em cheio a reputação do maior nome do PT, Lula, à revelia do superintendente da PF em São Paulo, do ministro da justiça e da presidente da república? A revista Veja chega a ser pueril – ou se faz, pois de há muito vem fazendo o jogo do governo Dilma - quando diz que a operação Porto Seguro só foi possível devido a uma medida administrativa tomada por Tarso Genro ao tempo em que foi ministro da Justiça, permitindo a descentralização das ações da PF. O sogro do atual ministro da Justiça não seria tão presciente assim.

O jornal O Estado de São Paulo de 3 de agosto divulgou uma pesquisa feita pela CNT, realizada nos dias 18 e 22 de julho deste ano, dando conta que Lula teria 69,8% das intenções de votos para presidente num cenário contra um candidato da oposição se a eleição fosse realizada naquela data, e Dilma, 59%, contra esse mesmo candidato. A mulher que tem a caneta e o diário oficial nas mãos tem menos votos que o populista sem mandato. Ou seja, antes da eleição de Hadad que se daria menos de três meses depois, Lula já mostrava sua força e isso o Planalto sabia. Assim sendo, deixaria ou permitiria a deflagração de uma operação policial que iria atingir em cheio a sua reputação se não tivesse justamente esse interesse?

Por que – essa pergunta tem de ser repetida - na medida em que o PT de São Paulo mostra força através de seu líder maior, o ex-presidente Lula, elegendo Hadad, o Planalto iria permitir que se levasse a cabo uma operação policial que teve na proa o seu nome? A resposta é: porque Lula é o principal concorrente em 2.014 da presidente Dilma. Ou alguém em sã consciência acredita que a polícia federal não fez escutas com a d. Rosemary? Só que o Planalto, através de seu ministro da justiça, acha que divulgar conversas dessa senhora não seria recomendável ou porque a dose seria cavalar para mostrar o que os cegos já veem.

Mas não acabou por aí. Agora vem à tona a figura de Marcos Valério fazendo acusações veladas ao ex-presidente Lula, dizendo que ele não só sabia, como deu ordens para se levar adiante, vamos chamar assim, a operação mensalão, bem como afirmando que pagou despesas pessoais de Lula depositando 100 mil reais na conta de Godoy, um lacaio do ex-presidente. Temos na sequência as condenações do mensalão, a operação Porto Seguro e as recentes declarações de Marcos Valério num espaço de menos de quatro meses envolvendo Lula em escândalos. Será coincidência?

Por fim, como em toda farsa que se preze, Dilma e seus acólitos fazem o mise en scène como manda o figurino. Primeiro, mandando José Eduardo Cardozo ao Congresso explicar para sua claque pelego-governista a isenção do governo na operação Porto Seguro pela polícia federal; depois, Dilma com sua indisfarçável satisfação - ou insatisfação? – defendendo Lula das acusações de Marcos Valério. Não sabemos se ainda restarão dias este ano para uma nova investida ou um novo escândalo contra o ex-presidente, mas 2.013 terá 365 dias.

O restante da defenestração de Lula e do jogo do governo são feitos pela oposição que com esse simulacro de crise no PT dá tiro no alvo errado e, pela imprensa, que não enxerga, ou se enxerga, quer dar uma versão dos fatos distantes de sua realidade, publicando de modo seletivo aquilo que lhe é passado pela PF. O PT está em processo de autofagia política, se comendo, como já ocorreu na Rússia soviética. Só não sabemos se haverá alguém fugindo para o México.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

LULA - A DERROCADA DO DEMIURGO DE GARANHUNS



“Só os déspotas ineptos servem-se das baionetas; a arte da tirania está em fazer as mesmas coisas através dos juízes” (Tácito).

            A imprensa vem publicando com recorrência o desgaste que o julgamento do “mensalão” está causando à imagem do PT e seus candidatos nestas eleições. E de tabela, segundo a mesma imprensa, à imagem de Lula. Desgaste do PT, vírgula. Desgaste do grupo de Lula, Dirceu e sua patota; isso sim, parece claro, a ruptura dos interesses intestinos do PT.

            Lula, como todo populista que se preze, se coloca muito acima daquilo que a realidade efetivamente lhe confere. Cheio de arrogância ao deixar a presidência com a eleição do “poste” Dilma, impôs várias indicações no ministério da nova presidente e achou que iria das cartas do jogo como queria na sua administração. Ao mesmo tempo disse que na sua ociosidade iria se dedicar à demonstração de que o “mensalão” nunca existiu, que foi uma farsa. Com certeza foi uma farsa, pois o projeto de comprar o Congresso, se não gorou, saiu pela metade e rendeu ao PT um processo no STF das dimensões jurídicas e políticas que estamos assistindo. Tivesse ele a preocupação, para não dizer inteligência, em relação à formatação do Supremo, e a clarividência de que quem não possui mais a caneta e o Diário Oficial vale um pouco mais que um fumo mascado, não estaria, agora, vivendo a agonia que sentem os condenados à forca.

            Lula, que se julga mais realista que o rei e mais sábio que a sabedoria, deveria saber que os obstáculos ao seu retorno à presidência, mais do que o seu câncer ou mesmo a oposição, residem entre de seus próprios aliados. Mas, sua bazófia de líder político que está acima do bem e do mal, demonstra-lhe o que ele ainda não enxergou: que Dilma e o grupo que está com ela no governo não estão a fim de – gratuitamente – devolver-lhe o poder e ao seu grupo. E por que fariam isso? E em homenagem a quem e a quê? Ninguém em política, desde que o mundo é mundo, faz isso. Um amigo meu já disse com sua verve de filósofo popular: sabedoria demais atrapalha a felicidade. Essa sabedoria lulista vai abreviar seu obituário político.

Nesse contexto Dilma e sua turma (ainda que digam que ela manda sozinha, o que não é verdade) de modo sutil vêm promovendo a defenestração da repartição lulista do PT e seu chefe maior. De forma dissimulada, ainda que para o distinto público o discurso seja de união do partido, Dilma e seus aliados fabricaram, via mídia, alguns escândalos de corrupção envolvendo nomes indicados por Lula nos ministérios e em alguns órgãos do segundo escalão do governo federal no começo de sua gestão, ao mesmo tempo em que foi sendo moldada a imagem do estilo “sóbrio e contido” da “presidenta”. Na contramão – ou na mão – da desconstrução do bufão Lula, ele mesmo fez e vem fazendo a sua parte ao dar uma mãozinha na sua derrocada. Julgando-se um demiurgo político, impôs alguns “postes” como candidatos nestas eleições municipais – à revelia do bom senso e do pragmatismo partidário - para provar que ele é o “cara”. Mas, o tiro está saindo pela culatra, pois em São Paulo, para ficar só num exemplo, salvo um revés inesperado, sua criatura, Hadad, não deve ir nem para o segundo turno.

            Mas o golpe de misericórdia está vindo, não dessas trapalhadas político-partidárias, mas de seu próprio ninho e da falta de visão que um político minimamente intelectualizado ou instruído não cometeria, ou que, se tivesse lido pelo menos as notas de rodapé de Maquiavel, Tancredo Neves ou Carlos Lacerda, assim não agiria. Lula não deu a devida importância à composição do Supremo Tribunal Federal, tribunal que na sua gestão pôde nomear oito integrantes. Se o seu projeto e o de sua turma era ficar um bom tempo no poder, Lula deveria ter tratado o STF com mais seriedade e pragmatismo nas suas nomeações. Mas não. Preferiu o oba-oba, as nomeações de cunho demagógico – como a necessidade de um negro e uma parcela de mulheres na sua composição – e o resultado está aí. Fumo! Joaquim Barbosa, assim como alguns de seus nomeados não estão nem aí para ele e estão condenando em série, mais do que os réus, a aura de intocabilidade de Lula. Tivesse ele mais sagacidade, teria percebido que a ministra nomeada por Dilma, Rosa Weber, foi indicação de Tarso Genro (aquele mesmo que quis refundir o PT na crise inicial do “mensalão”) e que é inimigo figadal de José Dirceu. Rosa Weber, após relator e revisor, foi a primeira a votar contra os mensaleiros do PT, desencadeando a “conspiração das elites”. Lula, nessa esteira de burrices próprias dos pretensiosos, ainda se deu ao luxo de não nomear o sucessor de Eros Grau, deixando para Dilma a nomeação de Luiz Fux. Teori Albino Zavascki, o próximo ministro de Dilma, vem dos pampas.

            Se estamos a assistir ao nascimento de uma nova república petista, a dos pampas, em oposição à da seção de São Paulo, só o tempo dirá.

            O que é evidente – e isso é certo – é que a turma de Dilma percebeu que cedo ou tarde a questão da sua sucessão levaria – ou levará - a um confronto com Lula (que nega, mas está doidinho para ser presidente novamente) e sua turma. A receita para tirar o “grande líder” do caminho está passando pelo Judiciário que, além de estar impondo condenações à sua patota, ao mesmo tempo impinge-lhe uma desmoralização pública, pois para quem dizia que o “mensalão” era uma lenda, agora, tem que ficar caladinho. Lula se esquece que por mais que se tenha popularidade, essa vale para a plebe rude; aqueles que detêm uma parcela de poder, como os integrantes do STF (exceção a Tófoli e Lewandowski), preferem e devotam reverência àquele que tem o poder nas mãos (o exemplo de Getúlio Vargas não mostrou isso aos “teóricos” do lulismo?).

            Esse filme já passou na antiga União Soviética, quando Stalin e Trotski lutavam pelo poder e se repete em versão remasterizada no bolchevismo tupiniquim. Lula, se tivesse aquele mínimo de alfabetização de que ele tanto tripudiou e debochou, saberia daquela advertência de Tácito que, dizem, foi lido por Maquiavel: “Só os déspotas ineptos servem-se das baionetas; a arte da tirania está em fazer as mesmas coisas através dos juízes”.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

LULA - A DERROCADA DO DEMIURGO DE GARANHUNS



“Só os déspotas ineptos servem-se das baionetas; a arte da tirania está em fazer as mesmas coisas através dos juízes” (Tácito).

            A imprensa vem publicando com recorrência o desgaste que o julgamento do “mensalão” está causando à imagem do PT e seus candidatos nestas eleições. E de tabela, segundo a mesma imprensa, à imagem de Lula. Desgaste do PT, vírgula. Desgaste do grupo de Lula, Dirceu e sua patota; isso sim, parece claro, a ruptura dos interesses intestinos do PT.

            Lula, como todo populista que se preze, se coloca muito acima daquilo que a realidade efetivamente lhe confere. Cheio de arrogância ao deixar a presidência com a eleição do “poste” Dilma, impôs várias indicações no ministério da nova presidente e achou que iria das cartas do jogo como queria na sua administração. Ao mesmo tempo disse que na sua ociosidade iria se dedicar à demonstração de que o “mensalão” nunca existiu, que foi uma farsa. Com certeza foi uma farsa, pois o projeto de comprar o Congresso, se não gorou, saiu pela metade e rendeu ao PT um processo no STF das dimensões jurídicas e políticas que estamos assistindo. Tivesse ele a preocupação, para não dizer inteligência, em relação à formatação do Supremo, e a clarividência de que quem não possui mais a caneta e o Diário Oficial vale um pouco mais que um fumo mascado, não estaria, agora, vivendo a agonia que sentem os condenados à forca.

            Lula, que se julga mais realista que o rei e mais sábio que a sabedoria, deveria saber que os obstáculos ao seu retorno à presidência, mais do que o seu câncer ou mesmo a oposição, residem entre de seus próprios aliados. Mas, sua bazófia de líder político que está acima do bem e do mal, demonstra-lhe o que ele ainda não enxergou: que Dilma e o grupo que está com ela no governo não estão a fim de – gratuitamente – devolver-lhe o poder e ao seu grupo. E por que fariam isso? E em homenagem a quem e a quê? Ninguém em política, desde que o mundo é mundo, faz isso. Um amigo meu já disse com sua verve de filósofo popular: sabedoria demais atrapalha a felicidade. Essa sabedoria lulista vai abreviar seu obituário político.

Nesse contexto Dilma e sua turma (ainda que digam que ela manda sozinha, o que não é verdade) de modo sutil vêm promovendo a defenestração da repartição lulista do PT e seu chefe maior. De forma dissimulada, ainda que para o distinto público o discurso seja de união do partido, Dilma e seus aliados fabricaram, via mídia, alguns escândalos de corrupção envolvendo nomes indicados por Lula nos ministérios e em alguns órgãos do segundo escalão do governo federal no começo de sua gestão, ao mesmo tempo em que foi sendo moldada a imagem do estilo “sóbrio e contido” da “presidenta”. Na contramão – ou na mão – da desconstrução do bufão Lula, ele mesmo fez e vem fazendo a sua parte ao dar uma mãozinha na sua derrocada. Julgando-se um demiurgo político, impôs alguns “postes” como candidatos nestas eleições municipais – à revelia do bom senso e do pragmatismo partidário - para provar que ele é o “cara”. Mas, o tiro está saindo pela culatra, pois em São Paulo, para ficar só num exemplo, salvo um revés inesperado, sua criatura, Hadad, não deve ir nem para o segundo turno.

            Mas o golpe de misericórdia está vindo, não dessas trapalhadas político-partidárias, mas de seu próprio ninho e da falta de visão que um político minimamente intelectualizado ou instruído não cometeria, ou que, se tivesse lido pelo menos as notas de rodapé de Maquiavel, Tancredo Neves ou Carlos Lacerda, assim não agiria. Lula não deu a devida importância à composição do Supremo Tribunal Federal, tribunal que na sua gestão pôde nomear oito integrantes. Se o seu projeto e o de sua turma era ficar um bom tempo no poder, Lula deveria ter tratado o STF com mais seriedade e pragmatismo nas suas nomeações. Mas não. Preferiu o oba-oba, as nomeações de cunho demagógico – como a necessidade de um negro e uma parcela de mulheres na sua composição – e o resultado está aí. Fumo! Joaquim Barbosa, assim como alguns de seus nomeados não estão nem aí para ele e estão condenando em série, mais do que os réus, a aura de intocabilidade de Lula. Tivesse ele mais sagacidade, teria percebido que a ministra nomeada por Dilma, Rosa Weber, foi indicação de Tarso Genro (aquele mesmo que quis refundir o PT na crise inicial do “mensalão”) e que é inimigo figadal de José Dirceu. Rosa Weber, após relator e revisor, foi a primeira a votar contra os mensaleiros do PT, desencadeando a “conspiração das elites”. Lula, nessa esteira de burrices próprias dos pretensiosos, ainda se deu ao luxo de não nomear o sucessor de Eros Grau, deixando para Dilma a nomeação de Luiz Fux. Teori Albino Zavascki, o próximo ministro de Dilma, vem dos pampas.

            Se estamos a assistir ao nascimento de uma nova república petista, a dos pampas, em oposição à da seção de São Paulo, só o tempo dirá.

            O que é evidente – e isso é certo – é que a turma de Dilma percebeu que cedo ou tarde a questão da sua sucessão levaria – ou levará - a um confronto com Lula (que nega, mas está doidinho para ser presidente novamente) e sua turma. A receita para tirar o “grande líder” do caminho está passando pelo Judiciário que, além de estar impondo condenações à sua patota, ao mesmo tempo impinge-lhe uma desmoralização pública, pois para quem dizia que o “mensalão” era uma lenda, agora, tem que ficar caladinho. Lula se esquece que por mais que se tenha popularidade, essa vale para a plebe rude; aqueles que detêm uma parcela de poder, como os integrantes do STF (exceção a Tófoli e Lewandowski), preferem e devotam reverência àquele que tem o poder nas mãos (o exemplo de Getúlio Vargas não mostrou isso aos “teóricos” do lulismo?).

            Esse filme já passou na antiga União Soviética, quando Stalin e Trotski lutavam pelo poder e se repete em versão remasterizada no bolchevismo tupiniquim. Lula, se tivesse aquele mínimo de alfabetização de que ele tanto tripudiou e debochou, saberia daquela advertência de Tácito que, dizem, foi lido por Maquiavel: “Só os déspotas ineptos servem-se das baionetas; a arte da tirania está em fazer as mesmas coisas através dos juízes”.