quarta-feira, 26 de setembro de 2012

LULA - A DERROCADA DO DEMIURGO DE GARANHUNS



“Só os déspotas ineptos servem-se das baionetas; a arte da tirania está em fazer as mesmas coisas através dos juízes” (Tácito).

            A imprensa vem publicando com recorrência o desgaste que o julgamento do “mensalão” está causando à imagem do PT e seus candidatos nestas eleições. E de tabela, segundo a mesma imprensa, à imagem de Lula. Desgaste do PT, vírgula. Desgaste do grupo de Lula, Dirceu e sua patota; isso sim, parece claro, a ruptura dos interesses intestinos do PT.

            Lula, como todo populista que se preze, se coloca muito acima daquilo que a realidade efetivamente lhe confere. Cheio de arrogância ao deixar a presidência com a eleição do “poste” Dilma, impôs várias indicações no ministério da nova presidente e achou que iria das cartas do jogo como queria na sua administração. Ao mesmo tempo disse que na sua ociosidade iria se dedicar à demonstração de que o “mensalão” nunca existiu, que foi uma farsa. Com certeza foi uma farsa, pois o projeto de comprar o Congresso, se não gorou, saiu pela metade e rendeu ao PT um processo no STF das dimensões jurídicas e políticas que estamos assistindo. Tivesse ele a preocupação, para não dizer inteligência, em relação à formatação do Supremo, e a clarividência de que quem não possui mais a caneta e o Diário Oficial vale um pouco mais que um fumo mascado, não estaria, agora, vivendo a agonia que sentem os condenados à forca.

            Lula, que se julga mais realista que o rei e mais sábio que a sabedoria, deveria saber que os obstáculos ao seu retorno à presidência, mais do que o seu câncer ou mesmo a oposição, residem entre de seus próprios aliados. Mas, sua bazófia de líder político que está acima do bem e do mal, demonstra-lhe o que ele ainda não enxergou: que Dilma e o grupo que está com ela no governo não estão a fim de – gratuitamente – devolver-lhe o poder e ao seu grupo. E por que fariam isso? E em homenagem a quem e a quê? Ninguém em política, desde que o mundo é mundo, faz isso. Um amigo meu já disse com sua verve de filósofo popular: sabedoria demais atrapalha a felicidade. Essa sabedoria lulista vai abreviar seu obituário político.

Nesse contexto Dilma e sua turma (ainda que digam que ela manda sozinha, o que não é verdade) de modo sutil vêm promovendo a defenestração da repartição lulista do PT e seu chefe maior. De forma dissimulada, ainda que para o distinto público o discurso seja de união do partido, Dilma e seus aliados fabricaram, via mídia, alguns escândalos de corrupção envolvendo nomes indicados por Lula nos ministérios e em alguns órgãos do segundo escalão do governo federal no começo de sua gestão, ao mesmo tempo em que foi sendo moldada a imagem do estilo “sóbrio e contido” da “presidenta”. Na contramão – ou na mão – da desconstrução do bufão Lula, ele mesmo fez e vem fazendo a sua parte ao dar uma mãozinha na sua derrocada. Julgando-se um demiurgo político, impôs alguns “postes” como candidatos nestas eleições municipais – à revelia do bom senso e do pragmatismo partidário - para provar que ele é o “cara”. Mas, o tiro está saindo pela culatra, pois em São Paulo, para ficar só num exemplo, salvo um revés inesperado, sua criatura, Hadad, não deve ir nem para o segundo turno.

            Mas o golpe de misericórdia está vindo, não dessas trapalhadas político-partidárias, mas de seu próprio ninho e da falta de visão que um político minimamente intelectualizado ou instruído não cometeria, ou que, se tivesse lido pelo menos as notas de rodapé de Maquiavel, Tancredo Neves ou Carlos Lacerda, assim não agiria. Lula não deu a devida importância à composição do Supremo Tribunal Federal, tribunal que na sua gestão pôde nomear oito integrantes. Se o seu projeto e o de sua turma era ficar um bom tempo no poder, Lula deveria ter tratado o STF com mais seriedade e pragmatismo nas suas nomeações. Mas não. Preferiu o oba-oba, as nomeações de cunho demagógico – como a necessidade de um negro e uma parcela de mulheres na sua composição – e o resultado está aí. Fumo! Joaquim Barbosa, assim como alguns de seus nomeados não estão nem aí para ele e estão condenando em série, mais do que os réus, a aura de intocabilidade de Lula. Tivesse ele mais sagacidade, teria percebido que a ministra nomeada por Dilma, Rosa Weber, foi indicação de Tarso Genro (aquele mesmo que quis refundir o PT na crise inicial do “mensalão”) e que é inimigo figadal de José Dirceu. Rosa Weber, após relator e revisor, foi a primeira a votar contra os mensaleiros do PT, desencadeando a “conspiração das elites”. Lula, nessa esteira de burrices próprias dos pretensiosos, ainda se deu ao luxo de não nomear o sucessor de Eros Grau, deixando para Dilma a nomeação de Luiz Fux. Teori Albino Zavascki, o próximo ministro de Dilma, vem dos pampas.

            Se estamos a assistir ao nascimento de uma nova república petista, a dos pampas, em oposição à da seção de São Paulo, só o tempo dirá.

            O que é evidente – e isso é certo – é que a turma de Dilma percebeu que cedo ou tarde a questão da sua sucessão levaria – ou levará - a um confronto com Lula (que nega, mas está doidinho para ser presidente novamente) e sua turma. A receita para tirar o “grande líder” do caminho está passando pelo Judiciário que, além de estar impondo condenações à sua patota, ao mesmo tempo impinge-lhe uma desmoralização pública, pois para quem dizia que o “mensalão” era uma lenda, agora, tem que ficar caladinho. Lula se esquece que por mais que se tenha popularidade, essa vale para a plebe rude; aqueles que detêm uma parcela de poder, como os integrantes do STF (exceção a Tófoli e Lewandowski), preferem e devotam reverência àquele que tem o poder nas mãos (o exemplo de Getúlio Vargas não mostrou isso aos “teóricos” do lulismo?).

            Esse filme já passou na antiga União Soviética, quando Stalin e Trotski lutavam pelo poder e se repete em versão remasterizada no bolchevismo tupiniquim. Lula, se tivesse aquele mínimo de alfabetização de que ele tanto tripudiou e debochou, saberia daquela advertência de Tácito que, dizem, foi lido por Maquiavel: “Só os déspotas ineptos servem-se das baionetas; a arte da tirania está em fazer as mesmas coisas através dos juízes”.

LULA - A DERROCADA DO DEMIURGO


LULA - A DERROCADA DO DEMIURGO

“Só os déspotas ineptos servem-se das baionetas; a arte da tirania está em fazer as mesmas coisas através dos juízes” (Tácito).

            A imprensa vem publicando com recorrência o desgaste que o julgamento do “mensalão” está causando à imagem do PT e seus candidatos nestas eleições. E de tabela, segundo a mesma imprensa, à imagem de Lula. Desgaste do PT, vírgula. Desgaste do grupo de Lula, Dirceu e sua patota; isso sim, parece claro, a ruptura dos interesses intestinos do PT.

            Lula, como todo populista que se preze, se coloca muito acima daquilo que a realidade efetivamente lhe confere. Cheio de arrogância ao deixar a presidência com a eleição do “poste” Dilma, impôs várias indicações no ministério da nova presidente e achou que iria das cartas do jogo como queria na sua administração. Ao mesmo tempo disse que na sua ociosidade iria se dedicar à demonstração de que o “mensalão” nunca existiu, que foi uma farsa. Com certeza foi uma farsa, pois o projeto de comprar o Congresso, se não gorou, saiu pela metade e rendeu ao PT um processo no STF das dimensões jurídicas e políticas que estamos assistindo. Tivesse ele a preocupação, para não dizer inteligência, em relação à formatação do Supremo, e a clarividência de que quem não possui mais a caneta e o Diário Oficial vale um pouco mais que um fumo mascado, não estaria, agora, vivendo a agonia que sentem os condenados à forca.

            Lula, que se julga mais realista que o rei e mais sábio que a sabedoria, deveria saber que os obstáculos ao seu retorno à presidência, mais do que o seu câncer ou mesmo a oposição, residem entre de seus próprios aliados. Mas, sua bazófia de líder político que está acima do bem e do mal, demonstra-lhe o que ele ainda não enxergou: que Dilma e o grupo que está com ela no governo não estão a fim de – gratuitamente – devolver-lhe o poder e ao seu grupo. E por que fariam isso? E em homenagem a quem e a quê? Ninguém em política, desde que o mundo é mundo, faz isso. Um amigo meu já disse com sua verve de filósofo popular: sabedoria demais atrapalha a felicidade. Essa sabedoria lulista vai abreviar seu obituário político.

Nesse contexto Dilma e sua turma (ainda que digam que ela manda sozinha, o que não é verdade) de modo sutil vêm promovendo a defenestração da repartição lulista do PT e seu chefe maior. De forma dissimulada, ainda que para o distinto público o discurso seja de união do partido, Dilma e seus aliados fabricaram, via mídia, alguns escândalos de corrupção envolvendo nomes indicados por Lula nos ministérios e em alguns órgãos do segundo escalão do governo federal no começo de sua gestão, ao mesmo tempo em que foi sendo moldada a imagem do estilo “sóbrio e contido” da “presidenta”. Na contramão – ou na mão – da desconstrução do bufão Lula, ele mesmo fez e vem fazendo a sua parte ao dar uma mãozinha na sua derrocada. Julgando-se um demiurgo político, impôs alguns “postes” como candidatos nestas eleições municipais – à revelia do bom senso e do pragmatismo partidário - para provar que ele é o “cara”. Mas, o tiro está saindo pela culatra, pois em São Paulo, para ficar só num exemplo, salvo um revés inesperado, sua criatura, Hadad, não deve ir nem para o segundo turno.

            Mas o golpe de misericórdia está vindo, não dessas trapalhadas político-partidárias, mas de seu próprio ninho e da falta de visão que um político minimamente intelectualizado ou instruído não cometeria, ou que, se tivesse lido pelo menos as notas de rodapé de Maquiavel, Tancredo Neves ou Carlos Lacerda, assim não agiria. Lula não deu a devida importância à composição do Supremo Tribunal Federal, tribunal que na sua gestão pôde nomear oito integrantes. Se o seu projeto e o de sua turma era ficar um bom tempo no poder, Lula deveria ter tratado o STF com mais seriedade e pragmatismo nas suas nomeações. Mas não. Preferiu o oba-oba, as nomeações de cunho demagógico – como a necessidade de um negro e uma parcela de mulheres na sua composição – e o resultado está aí. Fumo! Joaquim Barbosa, assim como alguns de seus nomeados não estão nem aí para ele e estão condenando em série, mais do que os réus, a aura de intocabilidade de Lula. Tivesse ele mais sagacidade, teria percebido que a ministra nomeada por Dilma, Rosa Weber, foi indicação de Tarso Genro (aquele mesmo que quis refundir o PT na crise inicial do “mensalão”) e que é inimigo figadal de José Dirceu. Rosa Weber, após relator e revisor, foi a primeira a votar contra os mensaleiros do PT, desencadeando a “conspiração das elites”. Lula, nessa esteira de burrices próprias dos pretensiosos, ainda se deu ao luxo de não nomear o sucessor de Eros Grau, deixando para Dilma a nomeação de Luiz Fux. Teori Albino Zavascki, o próximo ministro de Dilma, vem dos pampas.

            Se estamos a assistir ao nascimento de uma nova república petista, a dos pampas, em oposição à da seção de São Paulo, só o tempo dirá.

            O que é evidente – e isso é certo – é que a turma de Dilma percebeu que cedo ou tarde a questão da sua sucessão levaria – ou levará - a um confronto com Lula (que nega, mas está doidinho para ser presidente novamente) e sua turma. A receita para tirar o “grande líder” do caminho está passando pelo Judiciário que, além de estar impondo condenações à sua patota, ao mesmo tempo impinge-lhe uma desmoralização pública, pois para quem dizia que o “mensalão” era uma lenda, agora, tem que ficar caladinho. Lula se esquece que por mais que se tenha popularidade, essa vale para a plebe rude; aqueles que detêm uma parcela de poder, como os integrantes do STF (exceção a Tófoli e Lewandowski), preferem e devotam reverência àquele que tem o poder nas mãos (o exemplo de Getúlio Vargas não mostrou isso aos “teóricos” do lulismo?).

            Esse filme já passou na antiga União Soviética, quando Stalin e Trotski lutavam pelo poder e se repete em versão remasterizada no bolchevismo tupiniquim. Lula, se tivesse aquele mínimo de alfabetização de que ele tanto tripudiou e debochou, saberia daquela advertência de Tácito que, dizem, foi lido por Maquiavel: “Só os déspotas ineptos servem-se das baionetas; a arte da tirania está em fazer as mesmas coisas através dos juízes”.

terça-feira, 26 de junho de 2012


            O “GOLPE” CONTRA FERNANDO LUGO


“A indignação moral é uma das forças mais nocivas do mundo moderno, ainda mais porque pode ser sempre ser desviada para usos sinistros por aqueles que controlam a propaganda” (Bertrand Russel)


            O Governo do PT anda alardeando e comandando um coro para fazer crer que o congresso paraguaio deu um golpe para destituir dom Fernando Lugo do poder. Teve adesão de Bolívia, Equador, Argentina e Venezuela que não reconhecem, por enquanto, o novo governo paraguaio. No dia do impeachment – não sei por que – o governo brasileiro mandou seu ministro das relações exteriores para acompanhar o processo de impedimento do presidente paraguaio para verificar a legalidade das ações dos parlamentares paraguaios. Patriota voltou de lá calado. Antes não tivesse mandado ninguém para lá, porque assim teria pelo menos um motivo mais plausível para dizer que houve um golpe branco no país vizinho, que não aquele que tem sido verbalizado pela mídia de que o processo foi muito rápido e sumário.

            Mas, afinal, houve um golpe de Estado no Paraguai? Se houve, o golpe foi bem dado e com os retoques dos tempos modernos. Sem tanques, fuzis e baionetas; o presidente deposto não teve que fugir e nem foi preso, tradição que sempre se viu em golpes na América do Sul. E Lugo ainda dá entrevista, inclusive numa televisão estatal do Paraguai, dizendo que foi deposto por forças conservadoras do país. Se isso fosse pouco, as televisões do mundo todo (do mundo todo é exagero, pois esse fato não merece a atenção de todo o planeta) transmitiram ao vivo, voto a voto, o processo se afastamento do señor Lugo. Isso me parece mais ingredientes de uma democracia do que de ações de um putsch.

Quando isso seria possível em outros tempos? Os governos que não reconhecem o novo governo de Frederico Franco o fazem mais por razões ideológicas do que por razões de preservação da ordem democrática e muito menos por razões de Estado. Assim, que moral tem um Evo Morales, por exemplo, que invade refinarias da Petrobrás na Bolívia, para dizer que o Paraguai deu um golpe de Estado? Que moral tem a Argentina que nacionaliza uma empresa de petróleo espanhola a preço vil e censura a sua imprensa oposicionista, para falar de golpe? Que moral tem a Venezuela para acusar os parlamentares paraguaios de golpe, se o seu líder Chavez quer se perpetuar no poder com populismo e casuísmos legais na Constituição venezuelana e sucessivas reeleições? Que moral tem o Equador, do mesmo modo, quando faz pacto com terroristas das FARC, abrigando-os em seu território para desestabilizar governos que não se afinam com a esquerda que quer se impor compulsoriamente na América do Sul? Todo esse discurso não passa de falsa indignação moral que esses países procuram veicular pelo uso da propaganda oficial que detêm.

            Nos dias que antecederam o impeachment e mesmo no dia da cassação de Lugo, ouvi de analistas alinhados com esse discurso do golpe, que foi ferido o devido processo legal, pelo rito sumário e rapidez com que foi conduzido o processo de afastamento do presidente do Paraguai. Mas não ouvi ninguém dizer ou apontar que na Constituição paraguaia não há previsão legal para que o presidente possa ser afastado no prazo em que Lugo foi defenestrado. Todo mundo sabe que o processo de impeachment em qualquer lugar do mundo é um processo político e não tinha porque os opositores de Lugo dar tempo aos seus aliados para conspirar pela sua permanência. Nossos hermanos paraguaios foram inteligentes nesse ponto, pois sabiam que em política o tempo funciona, ou melhor, conspira, contra as situações de fato e quanto mais rápido se agir, melhor, fazendo valer aquela máxima de Magalhães Pinto que dizia que em política as coisas mudam de uma hora para a outra, sendo ela como uma nuvem, que numa hora você vê um cachorro que em seguida se transforma em um cavalo, num elefante, numa vaca...

            A história nos dá exemplo disso. Na França revolucionária de 1.789, no auge dos embates entre girondinos e jacobinos para definir quais os rumos que o país tomaria, se o terror ou a volta da normalidade, um deputado girondino Jean Baptiste Louvet acusou Robespierre abertamente de seus crimes na Convenção. Apontou ele, segundo nos dá conta Thomas Carlyle em sua História da Revolução Francesa, “crime após crime” de Robespierre: “temperamento ditatorial, popularidade exclusiva, intimidação eleitoral, séquito de populaça, matanças de setembro, até que toda Convenção se pôs a gritar e quase inculpava o Incorrutível ali mesmo. Nunca o Incorrutível correu tal risco. Louvet até à sua morte, lamentou-se sempre que a Gironda não tivesse assumido uma atitude mais ousada e não o tivesse eliminado ali e então”. O que veio depois dessa inação girondina, todos devem saber.

            Os políticos paraguaios não quiseram que a história se repetisse como uma farsa e muito menos como tragédia, para lembrar Marx n’O 18 Brumário de Luiz Bonaparte, e trataram de desapear Lugo rapidamente do poder. Lembram-se do escândalo do mensalão em 2.005, quando os bobocas da oposição brasileira não agiram rápido?

            Pois é. O governo brasileiro faria melhor se reconhecesse logo o novo governo paraguaio, pois o não reconhecimento não altera em nada a situação política por lá. Lugo não volta. Ou por um acaso se vai tentar fazer no Paraguai o que se tentou em Honduras, quando Lula e Chavez tentaram reintroduzir o presidente legitimamente afastado daquele país pelas instituições hondurenhas, numa verdadeira operação bufa? Os paraguaios, afora a claque levada para a porta do congresso de lá, não estão nem aí para o presidente deposto e, muito menos, os quase 500 mil brasiguaios que vivem no Paraguai e não suportavam mais o populismo barato do presidente deposto.

            Quem teve 1 voto na Câmara paraguaia e 3 no Senado, como teve Lugo, não podia mesmo ficar no poder.

sábado, 31 de março de 2012

O CALVÁRIO DO SENADOR DEMÓSTENES. O QUE O GOVERNO SABIA?



“Se a minha vida é apologia contra minha doutrina; se as minhas palavras já vão refutadas nas minhas obras; se uma cousa é o semeador e outra o que semeia, como se há de fazer fruto?” (Padre Antonio Vieira)

“A linguagem política – e com variações isso vale para todos os partidos políticos, dos conservadores aos anarquistas – é moldada para fazer mentiras soarem como verdades, dar respeitabilidade ao assassinato e aparência de solidez a puro vento” (George Orwell)

Calamandrei, salvo engano, disse que devemos desconfiar dos homens que arrotam honestidade. O caso do senador Demóstenes que se apresentava como paladino da moralidade pública e que se vê enrodilhado em denúncias de envolvimento em negócios escusos com o bicheiro Carlinhos Cachoeira – a quem o New York Times em seu primeiro escândalo há seis anos com Waldomiro Diniz, o chamou literalmente de “Charles Watterfall” – pode ser uma confirmação do que disse o jurista italiano. A situação do senador Demóstenes é crítica menos por eventualmente ter cometido um crime e mais pela revelação ao seu distinto público da incoerência entre o que ele diz da tribuna e as ações de sua vida privada. Os fatos que são trazidos ao conhecimento público revelam ainda como o senador pôde ser tão ingênuo e incauto a ponto de não preservar uma imagem de moralista construída ao longo destes tempos de denuncismo em que as vítimas do quilate do senador são um prato apetitoso.
Não fosse o senador Demóstenes aquilo que ele procurava passar para a opinião pública, sempre com se tivesse uma férula à mão criticando com um ar professoral os malfeitos (palavra tão ao gosto dos bajuladores oficiais) do governo, o caso seria resolvido com a solução recorrente a que os seus colegas de Senado se valem – o corporativismo. Mas a situação do senador é diferente. Está exposta sua reputação e nessas circunstâncias uma presa tão suculenta não escaparia da sanha daqueles que vivem de escândalos e daqueles a quem se incomoda.
Eça de Queiroz, quando diplomata na França, conta caso semelhante do fim de uma reputação no seu Ecos de Paris: o caso Buloz. Buloz era o diretor da respeitada “Revista dos Dois Mundos”. Conservador, austero, defensor da família e dos bons costumes da sociedade francesa, Buloz era o retrato do monopólio da decência e da honestidade. Mas Buloz, como todo mortal, tinha seu calcanhar de Aquiles e seu lado hipócrita e se viu envolvido com uma amante de origens pouco recomendáveis para um ilustre cidadão parisiense. Envolvido com a amante ao mesmo tempo em que defendia pela revista que dirigia a moralidade da família francesa, um dia a casa caiu, como se diz no jargão popular. Descoberta sua vida secreta, o impoluto Buloz caiu em desgraça, vítima dos “tubarões de Paris”, a quem Balzac se referia àquelas pessoas que se alimentavam de escândalos e engolem suas vítimas, seja uma garrafa jogada ao mar seja uma pescada suculenta.
O senador Demóstenes foi engolido não como uma garrafa, mas como uma pescada suculenta pelos tubarões de Brasília e tal como Buloz não só não soube preservar sua vida privada – o corredor da vida pública – como mostrou como no Brasil a incoerência é o rótulo mais visível da nossa classe política.
            Mas, o que o governo sabia sobre esses fatos? Essa é uma pergunta que a imprensa não fez, não enxergou ou não quis ver o alcance e a extensão desse episódio, preferindo tratá-lo pelas suas fímbrias. Há dois anos, todo esse material obtido pela Polícia Federal já teria sido encaminhado à Procuradoria Geral da República. A Polícia Federal, então, por ter feito as escutas no curso de um inquérito formal, sabia há pelo menos dois anos do envolvimento do senador Demóstenes com “Charles Watterfall”. Se a PF encaminhou essas provas para a Procuradoria Geral da República, será crível crer que não deu conhecimento ao Ministério da Justiça e este à Presidência da República? Por que deixaram congelado o senador goiano durante todo esse tempo? Por que o inquérito não passou a tramitar no Supremo Tribunal Federal desde então? Por que a PGR manteve silêncio e omissão durante todo esse tempo? Por que conversas gravadas por interceptações telefônicas que deveriam – ou devem – estar protegidas pelo sigilo, são levadas ao conhecimento público?
            O que chama atenção e assusta nesse episódio é que, parece, o governo, depois de manietar nossas instituições, possui uma caixa de maldades e a abre quando a conveniência lhe recomenda. Quando se assiste um governo fazer tantos “malfeitos” e vê-se uma oposição tíbia e acanhada, é sinal que muita gente tem rabo preso e sabe que a sua intimidade não é mais uma coisa que lhe diz respeito somente. Essa intimidade é dividida com o governo que possui os instrumentos legais e extralegais para nela se imiscuir. Portanto, vou especular, porque não tenho provas. Depois que o Congresso vetou a indicação da presidente Dilma Roussef do nome para ocupar a ANTT, o governo pôs em marcha o processo de desmoralização do senador Demóstenes (se foi escolhido aleatoriamente ou não, também não sei). Acionou o Ministério da Justiça, que por sua vez determinou a Polícia Federal que, por sua vez, pôs em marcha o inquérito de Carlinhos Cachoeira e, por fim, divulgou as conversas dele comprometendo o senador Demóstenes. Acerta um pombo e manda um recado aos outros.
            Assim, o processo de dissecação política do senador Demóstenes promovida pelo governo se dá de modo lento e gradual, em banho maria, na medida em que são divulgadas pela imprensa as suas conversas em doses homeopáticas.
            Imaginação? Não creio, porquanto não tem explicação uma investigação policial em curso há mais de dois anos só agora ter chegado ao conhecimento público e em circunstâncias no mínimo suspeitas. E se isso é correto, o governo e suas instituições são tão imorais quanto a conduta que se atribui ao senador Demóstenes.

           

domingo, 25 de março de 2012

CHICO ANYSIO – O ARTISTA DO RISO




“Vamos rir, pois. O riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação” (Eça de Queiroz).


Chico Anysio, pela repercussão que está sendo dada à sua morte, revela o quanto foi um gênio, sobretudo, na arte de fazer as pessoas rirem quando muitas vezes a circunstância levava ao choro ou à seriedade. Seu pecado foi ter-se convertido de torcedor do América para o do Vasco. O primeiro, - a conversão - um pecado perdoável, o segundo, - a adesão vascaína - um pecado mortal. Mas, afora o gracejo dessas colocações, a morte do Chico Anysio é daquelas que devem ser lamentadas por todos que gostavam, não só de seu humor, mas de sua inteligência. E num país em que se fabricam choros e lamentações para certas nulidades que morrem, Chico Anysio deve ser realmente pranteado.
Fazer rir não é fácil. É para aqueles que realmente têm esse dom, esse talento. E os atores que lidam com a arte de interpretar sabem que é mais fácil fazer chorar do que rir. E Chico Anysio, além de ter exercido um leque de versatilidades como escritor, roteirista, comentarista esportivo, ator, foi no humor, no entanto, que se imortalizou. Desde menino, ainda no tempo da televisão preto e branco, Chico já me fazia rir e às várias gerações que me antecederam e sucederam. Era eclético na arte de fazer rir. Dava vida tanto a uma piada de salão como a uma piada de cunho político. E se manteve assim durante toda sua existência. Sua arte e seu talento consistiam em explorar do cotidiano do povo brasileiro as piadas mais engraçadas; aquela piada que tanto o mais erudito dos homens como o mais simplório não se continham em gargalhadas quando contadas ou interpretadas por Chico Anysio.
Tavares, o emérito bebum; Justo Veríssimo, o protótipo do político brasileiro; Coalhada, a encarnação do lado cômico e desorganizado do futebol brasileiro; o professor Raimundo e seus alunos, o retrato da educação brasileira; Pantaleão, o lado cínico da mendacidade humana; Salomé, a gaúcha que recriminava a ditadura militar, e tantos outros. Em muitos desses personagens havia não só o humor que deles exalava, mas também e, sobretudo, retratava de modo fino, irônico e sutil o lado da crítica ferina e mordaz do nosso dia-a-dia que só o riso consegue demolir.
Chico Anysio teve a capacidade através de seu talento de retratar com humor muitas situações e facetas do povo brasileiro, sem reduzi-las à vulgaridade do senso comum. Tive a felicidade de assistir Chico Anysio ao vivo em três oportunidades. Uma no Rio, outra em Boa Vista e a última em Brasília, num espaço de tempo que distou pelo menos 15 anos da primeira para a última apresentação. Nessas três vezes ele sempre se apresentou diferente e renovador, criando e recriando, comprovando sua genialidade, pois é muito difícil atravessar mais de meio século nessa atividade e não perder a criatividade numa arte que é para poucos – fazer rir.
Definitivamente Chico Anysio vai deixar saudades. E digo isso com sinceridade e sem demagogias baratas, elogios estéreis e aqueles lugares comuns quando se tributa homenagens a certas pessoas pelo simples fato de terem morrido. Sim, Chico Anysio será eterno e poderia ter vivido mais tempo para adiar nossa orfandade. Sim, Chico Anysio o artista do riso sabia muito bem que seu humor tinha mais poder que uma baioneta e, de certa forma, embora a história e os historiadores até agora não lhe confiram essa honraria, ajudou a sepultar o regime militar na figura, dentre outros de seus personagens, de Salomé, que não era outra coisa que a voz do povo brasileiro clamando pela volta da normalidade democrática (se é que essa normalidade democrática alcançou a sua maturidade no Brasil). Seu humor foi decididamente um instrumento político em favor do povo brasileiro, no sentido mais higiênico que a palavra possa comportar nesses dias de putrefação moral.
Por isso mesmo, nós brasileiros (ou pelo menos eu) lhe dedicamos como réquiem, as palavras de Eça de Queiroz, tão afetas ao Brasil de hoje: “a gargalhada não é nem um raciocínio nem um sentimento; não cria nada, destrói tudo, não responde por coisa alguma. Um Governo decreta? gargalhada. Reprime? gargalhada. Cai? gargalhada. E sempre esta política, liberal ou opressiva, terá em redor dela, sobre ela, envolvendo-a como a palpitação de asas de uma ave monstruosa, sempre, perpetuamente, vibrante, e cruel – a gargalhada!”.

Grande Chico Anysio, requiescat in pace.