terça-feira, 26 de junho de 2012


            O “GOLPE” CONTRA FERNANDO LUGO


“A indignação moral é uma das forças mais nocivas do mundo moderno, ainda mais porque pode ser sempre ser desviada para usos sinistros por aqueles que controlam a propaganda” (Bertrand Russel)


            O Governo do PT anda alardeando e comandando um coro para fazer crer que o congresso paraguaio deu um golpe para destituir dom Fernando Lugo do poder. Teve adesão de Bolívia, Equador, Argentina e Venezuela que não reconhecem, por enquanto, o novo governo paraguaio. No dia do impeachment – não sei por que – o governo brasileiro mandou seu ministro das relações exteriores para acompanhar o processo de impedimento do presidente paraguaio para verificar a legalidade das ações dos parlamentares paraguaios. Patriota voltou de lá calado. Antes não tivesse mandado ninguém para lá, porque assim teria pelo menos um motivo mais plausível para dizer que houve um golpe branco no país vizinho, que não aquele que tem sido verbalizado pela mídia de que o processo foi muito rápido e sumário.

            Mas, afinal, houve um golpe de Estado no Paraguai? Se houve, o golpe foi bem dado e com os retoques dos tempos modernos. Sem tanques, fuzis e baionetas; o presidente deposto não teve que fugir e nem foi preso, tradição que sempre se viu em golpes na América do Sul. E Lugo ainda dá entrevista, inclusive numa televisão estatal do Paraguai, dizendo que foi deposto por forças conservadoras do país. Se isso fosse pouco, as televisões do mundo todo (do mundo todo é exagero, pois esse fato não merece a atenção de todo o planeta) transmitiram ao vivo, voto a voto, o processo se afastamento do señor Lugo. Isso me parece mais ingredientes de uma democracia do que de ações de um putsch.

Quando isso seria possível em outros tempos? Os governos que não reconhecem o novo governo de Frederico Franco o fazem mais por razões ideológicas do que por razões de preservação da ordem democrática e muito menos por razões de Estado. Assim, que moral tem um Evo Morales, por exemplo, que invade refinarias da Petrobrás na Bolívia, para dizer que o Paraguai deu um golpe de Estado? Que moral tem a Argentina que nacionaliza uma empresa de petróleo espanhola a preço vil e censura a sua imprensa oposicionista, para falar de golpe? Que moral tem a Venezuela para acusar os parlamentares paraguaios de golpe, se o seu líder Chavez quer se perpetuar no poder com populismo e casuísmos legais na Constituição venezuelana e sucessivas reeleições? Que moral tem o Equador, do mesmo modo, quando faz pacto com terroristas das FARC, abrigando-os em seu território para desestabilizar governos que não se afinam com a esquerda que quer se impor compulsoriamente na América do Sul? Todo esse discurso não passa de falsa indignação moral que esses países procuram veicular pelo uso da propaganda oficial que detêm.

            Nos dias que antecederam o impeachment e mesmo no dia da cassação de Lugo, ouvi de analistas alinhados com esse discurso do golpe, que foi ferido o devido processo legal, pelo rito sumário e rapidez com que foi conduzido o processo de afastamento do presidente do Paraguai. Mas não ouvi ninguém dizer ou apontar que na Constituição paraguaia não há previsão legal para que o presidente possa ser afastado no prazo em que Lugo foi defenestrado. Todo mundo sabe que o processo de impeachment em qualquer lugar do mundo é um processo político e não tinha porque os opositores de Lugo dar tempo aos seus aliados para conspirar pela sua permanência. Nossos hermanos paraguaios foram inteligentes nesse ponto, pois sabiam que em política o tempo funciona, ou melhor, conspira, contra as situações de fato e quanto mais rápido se agir, melhor, fazendo valer aquela máxima de Magalhães Pinto que dizia que em política as coisas mudam de uma hora para a outra, sendo ela como uma nuvem, que numa hora você vê um cachorro que em seguida se transforma em um cavalo, num elefante, numa vaca...

            A história nos dá exemplo disso. Na França revolucionária de 1.789, no auge dos embates entre girondinos e jacobinos para definir quais os rumos que o país tomaria, se o terror ou a volta da normalidade, um deputado girondino Jean Baptiste Louvet acusou Robespierre abertamente de seus crimes na Convenção. Apontou ele, segundo nos dá conta Thomas Carlyle em sua História da Revolução Francesa, “crime após crime” de Robespierre: “temperamento ditatorial, popularidade exclusiva, intimidação eleitoral, séquito de populaça, matanças de setembro, até que toda Convenção se pôs a gritar e quase inculpava o Incorrutível ali mesmo. Nunca o Incorrutível correu tal risco. Louvet até à sua morte, lamentou-se sempre que a Gironda não tivesse assumido uma atitude mais ousada e não o tivesse eliminado ali e então”. O que veio depois dessa inação girondina, todos devem saber.

            Os políticos paraguaios não quiseram que a história se repetisse como uma farsa e muito menos como tragédia, para lembrar Marx n’O 18 Brumário de Luiz Bonaparte, e trataram de desapear Lugo rapidamente do poder. Lembram-se do escândalo do mensalão em 2.005, quando os bobocas da oposição brasileira não agiram rápido?

            Pois é. O governo brasileiro faria melhor se reconhecesse logo o novo governo paraguaio, pois o não reconhecimento não altera em nada a situação política por lá. Lugo não volta. Ou por um acaso se vai tentar fazer no Paraguai o que se tentou em Honduras, quando Lula e Chavez tentaram reintroduzir o presidente legitimamente afastado daquele país pelas instituições hondurenhas, numa verdadeira operação bufa? Os paraguaios, afora a claque levada para a porta do congresso de lá, não estão nem aí para o presidente deposto e, muito menos, os quase 500 mil brasiguaios que vivem no Paraguai e não suportavam mais o populismo barato do presidente deposto.

            Quem teve 1 voto na Câmara paraguaia e 3 no Senado, como teve Lugo, não podia mesmo ficar no poder.

sábado, 31 de março de 2012

O CALVÁRIO DO SENADOR DEMÓSTENES. O QUE O GOVERNO SABIA?



“Se a minha vida é apologia contra minha doutrina; se as minhas palavras já vão refutadas nas minhas obras; se uma cousa é o semeador e outra o que semeia, como se há de fazer fruto?” (Padre Antonio Vieira)

“A linguagem política – e com variações isso vale para todos os partidos políticos, dos conservadores aos anarquistas – é moldada para fazer mentiras soarem como verdades, dar respeitabilidade ao assassinato e aparência de solidez a puro vento” (George Orwell)

Calamandrei, salvo engano, disse que devemos desconfiar dos homens que arrotam honestidade. O caso do senador Demóstenes que se apresentava como paladino da moralidade pública e que se vê enrodilhado em denúncias de envolvimento em negócios escusos com o bicheiro Carlinhos Cachoeira – a quem o New York Times em seu primeiro escândalo há seis anos com Waldomiro Diniz, o chamou literalmente de “Charles Watterfall” – pode ser uma confirmação do que disse o jurista italiano. A situação do senador Demóstenes é crítica menos por eventualmente ter cometido um crime e mais pela revelação ao seu distinto público da incoerência entre o que ele diz da tribuna e as ações de sua vida privada. Os fatos que são trazidos ao conhecimento público revelam ainda como o senador pôde ser tão ingênuo e incauto a ponto de não preservar uma imagem de moralista construída ao longo destes tempos de denuncismo em que as vítimas do quilate do senador são um prato apetitoso.
Não fosse o senador Demóstenes aquilo que ele procurava passar para a opinião pública, sempre com se tivesse uma férula à mão criticando com um ar professoral os malfeitos (palavra tão ao gosto dos bajuladores oficiais) do governo, o caso seria resolvido com a solução recorrente a que os seus colegas de Senado se valem – o corporativismo. Mas a situação do senador é diferente. Está exposta sua reputação e nessas circunstâncias uma presa tão suculenta não escaparia da sanha daqueles que vivem de escândalos e daqueles a quem se incomoda.
Eça de Queiroz, quando diplomata na França, conta caso semelhante do fim de uma reputação no seu Ecos de Paris: o caso Buloz. Buloz era o diretor da respeitada “Revista dos Dois Mundos”. Conservador, austero, defensor da família e dos bons costumes da sociedade francesa, Buloz era o retrato do monopólio da decência e da honestidade. Mas Buloz, como todo mortal, tinha seu calcanhar de Aquiles e seu lado hipócrita e se viu envolvido com uma amante de origens pouco recomendáveis para um ilustre cidadão parisiense. Envolvido com a amante ao mesmo tempo em que defendia pela revista que dirigia a moralidade da família francesa, um dia a casa caiu, como se diz no jargão popular. Descoberta sua vida secreta, o impoluto Buloz caiu em desgraça, vítima dos “tubarões de Paris”, a quem Balzac se referia àquelas pessoas que se alimentavam de escândalos e engolem suas vítimas, seja uma garrafa jogada ao mar seja uma pescada suculenta.
O senador Demóstenes foi engolido não como uma garrafa, mas como uma pescada suculenta pelos tubarões de Brasília e tal como Buloz não só não soube preservar sua vida privada – o corredor da vida pública – como mostrou como no Brasil a incoerência é o rótulo mais visível da nossa classe política.
            Mas, o que o governo sabia sobre esses fatos? Essa é uma pergunta que a imprensa não fez, não enxergou ou não quis ver o alcance e a extensão desse episódio, preferindo tratá-lo pelas suas fímbrias. Há dois anos, todo esse material obtido pela Polícia Federal já teria sido encaminhado à Procuradoria Geral da República. A Polícia Federal, então, por ter feito as escutas no curso de um inquérito formal, sabia há pelo menos dois anos do envolvimento do senador Demóstenes com “Charles Watterfall”. Se a PF encaminhou essas provas para a Procuradoria Geral da República, será crível crer que não deu conhecimento ao Ministério da Justiça e este à Presidência da República? Por que deixaram congelado o senador goiano durante todo esse tempo? Por que o inquérito não passou a tramitar no Supremo Tribunal Federal desde então? Por que a PGR manteve silêncio e omissão durante todo esse tempo? Por que conversas gravadas por interceptações telefônicas que deveriam – ou devem – estar protegidas pelo sigilo, são levadas ao conhecimento público?
            O que chama atenção e assusta nesse episódio é que, parece, o governo, depois de manietar nossas instituições, possui uma caixa de maldades e a abre quando a conveniência lhe recomenda. Quando se assiste um governo fazer tantos “malfeitos” e vê-se uma oposição tíbia e acanhada, é sinal que muita gente tem rabo preso e sabe que a sua intimidade não é mais uma coisa que lhe diz respeito somente. Essa intimidade é dividida com o governo que possui os instrumentos legais e extralegais para nela se imiscuir. Portanto, vou especular, porque não tenho provas. Depois que o Congresso vetou a indicação da presidente Dilma Roussef do nome para ocupar a ANTT, o governo pôs em marcha o processo de desmoralização do senador Demóstenes (se foi escolhido aleatoriamente ou não, também não sei). Acionou o Ministério da Justiça, que por sua vez determinou a Polícia Federal que, por sua vez, pôs em marcha o inquérito de Carlinhos Cachoeira e, por fim, divulgou as conversas dele comprometendo o senador Demóstenes. Acerta um pombo e manda um recado aos outros.
            Assim, o processo de dissecação política do senador Demóstenes promovida pelo governo se dá de modo lento e gradual, em banho maria, na medida em que são divulgadas pela imprensa as suas conversas em doses homeopáticas.
            Imaginação? Não creio, porquanto não tem explicação uma investigação policial em curso há mais de dois anos só agora ter chegado ao conhecimento público e em circunstâncias no mínimo suspeitas. E se isso é correto, o governo e suas instituições são tão imorais quanto a conduta que se atribui ao senador Demóstenes.

           

domingo, 25 de março de 2012

CHICO ANYSIO – O ARTISTA DO RISO




“Vamos rir, pois. O riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação” (Eça de Queiroz).


Chico Anysio, pela repercussão que está sendo dada à sua morte, revela o quanto foi um gênio, sobretudo, na arte de fazer as pessoas rirem quando muitas vezes a circunstância levava ao choro ou à seriedade. Seu pecado foi ter-se convertido de torcedor do América para o do Vasco. O primeiro, - a conversão - um pecado perdoável, o segundo, - a adesão vascaína - um pecado mortal. Mas, afora o gracejo dessas colocações, a morte do Chico Anysio é daquelas que devem ser lamentadas por todos que gostavam, não só de seu humor, mas de sua inteligência. E num país em que se fabricam choros e lamentações para certas nulidades que morrem, Chico Anysio deve ser realmente pranteado.
Fazer rir não é fácil. É para aqueles que realmente têm esse dom, esse talento. E os atores que lidam com a arte de interpretar sabem que é mais fácil fazer chorar do que rir. E Chico Anysio, além de ter exercido um leque de versatilidades como escritor, roteirista, comentarista esportivo, ator, foi no humor, no entanto, que se imortalizou. Desde menino, ainda no tempo da televisão preto e branco, Chico já me fazia rir e às várias gerações que me antecederam e sucederam. Era eclético na arte de fazer rir. Dava vida tanto a uma piada de salão como a uma piada de cunho político. E se manteve assim durante toda sua existência. Sua arte e seu talento consistiam em explorar do cotidiano do povo brasileiro as piadas mais engraçadas; aquela piada que tanto o mais erudito dos homens como o mais simplório não se continham em gargalhadas quando contadas ou interpretadas por Chico Anysio.
Tavares, o emérito bebum; Justo Veríssimo, o protótipo do político brasileiro; Coalhada, a encarnação do lado cômico e desorganizado do futebol brasileiro; o professor Raimundo e seus alunos, o retrato da educação brasileira; Pantaleão, o lado cínico da mendacidade humana; Salomé, a gaúcha que recriminava a ditadura militar, e tantos outros. Em muitos desses personagens havia não só o humor que deles exalava, mas também e, sobretudo, retratava de modo fino, irônico e sutil o lado da crítica ferina e mordaz do nosso dia-a-dia que só o riso consegue demolir.
Chico Anysio teve a capacidade através de seu talento de retratar com humor muitas situações e facetas do povo brasileiro, sem reduzi-las à vulgaridade do senso comum. Tive a felicidade de assistir Chico Anysio ao vivo em três oportunidades. Uma no Rio, outra em Boa Vista e a última em Brasília, num espaço de tempo que distou pelo menos 15 anos da primeira para a última apresentação. Nessas três vezes ele sempre se apresentou diferente e renovador, criando e recriando, comprovando sua genialidade, pois é muito difícil atravessar mais de meio século nessa atividade e não perder a criatividade numa arte que é para poucos – fazer rir.
Definitivamente Chico Anysio vai deixar saudades. E digo isso com sinceridade e sem demagogias baratas, elogios estéreis e aqueles lugares comuns quando se tributa homenagens a certas pessoas pelo simples fato de terem morrido. Sim, Chico Anysio será eterno e poderia ter vivido mais tempo para adiar nossa orfandade. Sim, Chico Anysio o artista do riso sabia muito bem que seu humor tinha mais poder que uma baioneta e, de certa forma, embora a história e os historiadores até agora não lhe confiram essa honraria, ajudou a sepultar o regime militar na figura, dentre outros de seus personagens, de Salomé, que não era outra coisa que a voz do povo brasileiro clamando pela volta da normalidade democrática (se é que essa normalidade democrática alcançou a sua maturidade no Brasil). Seu humor foi decididamente um instrumento político em favor do povo brasileiro, no sentido mais higiênico que a palavra possa comportar nesses dias de putrefação moral.
Por isso mesmo, nós brasileiros (ou pelo menos eu) lhe dedicamos como réquiem, as palavras de Eça de Queiroz, tão afetas ao Brasil de hoje: “a gargalhada não é nem um raciocínio nem um sentimento; não cria nada, destrói tudo, não responde por coisa alguma. Um Governo decreta? gargalhada. Reprime? gargalhada. Cai? gargalhada. E sempre esta política, liberal ou opressiva, terá em redor dela, sobre ela, envolvendo-a como a palpitação de asas de uma ave monstruosa, sempre, perpetuamente, vibrante, e cruel – a gargalhada!”.

Grande Chico Anysio, requiescat in pace.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A GUERRA SANTA AO SACO PLÁSTICO

A GUERRA SANTA AO SACO PLÁSTICO


De tempos em tempos os governos promovem certas campanhas que, se não têm nada de segundas intenções, denotam a estupidez ao que elas se prestam e propõem. Variam entre as macro e as micro campanhas (ainda poderíamos citar uma categoria intermediária naquele programa do governo de distribuir preservativos grátis no carnaval para impedir a disseminação da AIDS). As primeiras, as macro campanhas, encaixam-se no combate ao crack, que o governo Dilma anunciou um investimento de R$ 4 bilhões; as segundas, as micro campanhas, situam-se na guerra aberta aos sacos plásticos de supermercados que vêm recebendo, tolamente pelos ambientalistas, açulada pelo governo e, esperta e oportunamente, pelos donos daqueles estabelecimentos comerciais, apoio de uma “guerra santa”. A dinheirama que está sendo destinada ao combate ao crack – como das drogas de um modo geral - é uma campanha estúpida e ineficaz, mas será objeto de análise em outro artigo. Este artigo tratará da cruzada que foi iniciada contra os sacos plásticos de supermercados, nomeado o vilão, o inimigo público número do meio ambiente.
Tudo parece ter começado, ou ganhar corpo, quando o histriônico e então ministro do Meio Ambiente do governo Lula, Carlos Minc, lançou o mote dessa campanha: “o saco é um saco”. Não sei aonde querem chegar e o que pretendem aqueles que capitaneiam essa campanha que, de inócua tem tudo, de ineficaz tem muito, e de estéril tem demais. Sim, por que é de se indagar o que se tem a ganhar com essa guerra santa ao saco plástico? O que ele efetivamente, deixando de ser utilizado pelas donas-de casa, vai ajudar na proteção do meio ambiente? Seus defensores sustentam aquela cantilena de que o plástico leva em média 400 anos para se decompor e sem o nosso saquinho plástico de cada dia, a vida vai ser melhor.
Ora direis, ouvir estrelas! Certo perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto..., diria o poeta, afora um esquema de marketing para enganar os tolos e favorecer sabe lá quem, essa campanha é um engodo sob todos ou quase todos os aspectos. Para tanto basta dar uma olhadinha em nossa volta para ver como o plástico está presente em nossas vidas mais do que possa supor nossas vãs filosofias marqueteiras. Ele não se resume aos sacos de supermercado. Pensando nisso é que comecei a observar em minha casa como ele é quase onipresente em nossas vidas. Lá – em minha casa – vi o plástico nas capas dos CD’s e DVD’s, nos copos, nas telas e revestimentos dos computadores, na tela e revestimentos dos televisores, nos controles remotos de TV, CD e DVD, nos cestos de lixo, nos fios e tomadas elétricas, na base de meu globo (mapa-múndi), nos revestimentos e capas dos livros que recebo, em embalagens de roupas, em sacolas de boutique, nas embalagens de xampu, de fio dental, de pasta de dente, de escova de dente, de creme de barbear, dos aparelhos de barbear, dos hidratantes, das tampas de perfume, de cabos de escova de cabelo, nas embalagens de cotonete, nos vasos de bijuterias, nos pentes de cabelo, nos desodorantes, na bolsa de maquiar, etc, etc, etc. Está bom? Mas, antes que pudesse encerrar os exemplos da presença do plástico, senão em nossas vidas, ao menos em minha casa, me deparei com ele, presente como nunca, na cozinha: no liquidificador, no revestimento do fogão, na geladeira, no forno de microondas, no revestimento da cafeteira, no revestimento da geladeira, na embalagem do adoçante, da manteiga, do café solúvel, na tampa do porta-bolo, da biscoiteira, do invólucro da embalagem do queijo, do presunto, das embalagens para guardar frutas, nas garrafas de refrigerante (da tampa ao rótulo)... Chega? No meu escritório vi grampeadores com revestimento de plástico, a impressora do computador, a luminária de leitura, os envelopes de SEDEX, a fita que embalou uma caixa da minha última viagem ... Dei uma olhada em meu carro no estacionamento e de relance vi o painel e os faróis de meu carro de plástico, muitos de seus acessórios, os cestões de lixo do prédio... Agora chega! O mundo é um mar de plástico que se transporta para além de minha casa e eu ficaria aqui um dia inteiro neste artigo falando da onipresença do plástico na vida moderna e isso até onde meu olho alcança. Mas o governo diz que vai acabar com essa intromissão banindo o saco plástico de supermercado.
Para quê? Até onde eu pude perceber os resultados dessa guerra santa foi o surgimento de um novo negócio - lucrativo! - dos donos de supermercado. Algumas das grandes redes de supermercado a título de estarem contribuindo com a proteção do meio ambiente oferecem ao cliente no caixa, na hora do pagamento das compras, as ditas sacolas ambientais. Oferecem, mas vendidas, é claro. Economizam seus custos com a abolição do saco plástico e lucram ao mesmo tempo com a venda das sacolas ambientais, que o otário do consumidor deve pagar para levar suas compras para casa.
Eu não sei como é que com tantas coisas importantes, o governo, usando os bobos e os ambientalistas, se volta para uma campanha que não tem o menor reflexo nas nossas vidas, o menor alcance prático, a menor consequência no nosso cotidiano. Plástico, seja ele de saco de supermercado ou não, ainda que leve muitos anos para se decompor, é reciclável, e as indústrias não estão lhe dando o desperdício que é alardeado. Pelo contrário, são reaproveitáveis e dão sustento até para catadores de lixo, pois está inserto numa vasta cadeia da economia. Há questões muito mais importantes a que o governo poderia – e deveria – se voltar, e pela qual os ambientalistas poderiam mirar suas armas. O desperdício da água e a falta de uma legislação para disciplinar sua utilização no Brasil, só para dar um exemplo, reclamam, por exemplo, um movimento muito maior e mais importante nesse sentido, mas, pouco dele se fala.
Assim, tudo se resume a mera publicidade, publicidade a que George Orwell disse ter sido a fraude mais sórdida que o capitalismo já inventou, porque ela “é o equivalente a agitar uma vara dentro do balde da lavagem”, enquanto nós, consumidores, somos “como porcos confinados” à espera do chamado.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O LOUCO DE SÃO PAULO


“Os amantes e os loucos têm cérebros tão fervilhantes, fantasias tão imaginativas, que acabam por conceber mais do que a fria razão pode compreender. O lunático, o amante e o poeta são compostos tão-somente de imaginação. Um enxerga tantos demônios que estes não cabem em todo vasto inferno; assim é o louco” (Wiliam Shakespeare, diálogo de Teseu na cena I, do V ato de Sonho de uma noite de verão).




            Há poucos dias em São Paulo, um empresário e artista plástico de 33 anos, de uma família de classe média e com uma referência que o colocava - dentro de critérios convencionais - fora de suspeita de uma conduta anormal, roubou um automóvel, saiu pelas ruas da capital paulista atirando contra várias pessoas, feriu algumas delas e tentou roubar tantas outras. Preso, descobriu-se que ele levava uma vida introspectiva e tinha problemas de relacionamento com a família e os vizinhos. Na delegacia, após surtos de desequilíbrio mental, o artista plástico disse que se sentia ameaçado e temia ser morto, atribuindo seus temores a algozes imaginários.
A imprensa escrita e televisa mostrou tudo isso ao país. Um homem com uma conversa desconexa, um olhar siderado e um rosto que denunciava o comportamento de um desequilibrado mental.
O episódio, felizmente, não teve vítimas fatais; mas poderia ter levado a uma tragédia maior. Num primeiro momento, pelo ineditismo da ação, o delegado responsável pela apuração do caso admitiu que pode tratar-se de um “surto psicótico” de Michel, mas mesmo assim foi pedida e decretada sua prisão. Pois bem. Alguém de bom senso ou inteligência mediana, pode considerar que esse Michel Goldfarb Costa tem um comportamento normal? Por que ele não foi examinado por um médico sequer ao ser detido e preso? Por que se dar a um caso que se afigura escancaradamente um problema de ordem médica, uma condução meramente policial?
Como é que alguém, de boa família, com estabilidade financeira, mas que tem um histórico de introversão e dificuldade de relacionamento, poderia ser normal do ponto de vista médico, roubando e atirando contra pessoas que ela nunca viu na vida em plena via pública da maior cidade da América Latina? Eu não preciso de um diagnóstico médico para afirmar que esse rapaz é um doido varrido. E perigoso.
Mas esse é o problema do Brasil. Sempre procuramos tratar casos tais com sensacionalismo e sob a ótica da visão policialesca. E, depois pronto. Tudo cai no esquecimento. Ao invés de ser mandado para uma prisão, ele deveria ter ido direto para um hospital psiquiátrico para ser examinado. Se os médicos disserem que ele não é louco – coisa que eu duvido muito – deve continuar preso; se disserem que não, deve ser mantido sob tratamento ou em medida de segurança a fim de que não saia por aí pondo em risco a vida das pessoas.
Por que faço essas ponderações? Porque há menos de um ano a escola Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, viveu espetáculo parecido, onde um maluco munido de uma arma matou várias crianças numa sala de aula. Mesmo morto, descobriu-se que Wellington Oliveira, o assassino, apresentava um perfil comportamental semelhante ao do louco de São Paulo. Naquela ocasião, no Rio, além da comoção do país que acompanhou incrédulo a morte de várias crianças na idade escolar, fomos tomados por um sem-fim de demonstrações de demagogia, hipocrisia, falsa revolta e todas aquelas atitudes bem conhecidas de certos oportunistas que gostam de aparecer nas tragédias dos outros.
No caso de São Paulo a reação foi menor, porque não houve vítimas fatais e porque, por certo, as vítimas não eram ou não foram crianças, que sempre são um cardápio melhor para o cinismo público em casos tais e do qual elas são as próprias vítimas. Portanto, o índice de oportunistas, palpiteiros e demagogos no episódio de São Paulo foi diretamente proporcional ao tamanho da tragédia. A imprensa só deu ao fato, como disse Andy Warhol, os seus15 minutos de fama.
Na ocasião do massacre da escola Tasso da Silveira, disse eu em um artigo do meu blog, que as autoridades – os políticos, sobretudo – ao invés de lançarem insultos e invectivas contra o louco-morto do Rio de Janeiro, deveriam descobrir porque uma pessoa aparentemente normal foi capaz de cometer um ato tão tresloucado como o que foi perpetrado por Wellington Oliveira contra crianças indefesas.
Lembro-me naquela ocasião que houve até certas autoridades públicas que ensaiaram um choro pelas crianças mortas. Mas, de lá prá cá ninguém fala mais no assunto e o que é mais grave, nunca se procurou descobrir as causas daquele ato desvairado e muito menos se criar mecanismos de prevenção, embora naquela mesma oportunidade tenha afirmado que quando um homem está disposto a matar alguém sem preservar a sua própria vida, é quase impossível dar proteção e segurança ao seu alvo, mesmo que esse alvo seja o papa ou o presidente dos Estados Unidos.
O padre Vieira disse que a diferença entre o falso e o verdadeiro profeta só se sabe quando a profecia se realiza. Mas, quando da tragédia do Rio de Janeiro, eu me arrisquei – com convicção – em dizer que o episódio não seria um caso isolado no Brasil e que muitos Wellingtons ainda estariam por explodir. Acertei. Michel já explodiu, mas não sou profeta, ainda que a profecia tenha se realizado. Resumo da ópera: Michel Goldfarb Costa não é amante e nem poeta; é louco.