quarta-feira, 4 de maio de 2011

BIN LADEN MORREU?

“Não é com argumentos racionais que se sublevam as multidões. Por meio de crenças elas sempre serão dominadas” (Gustave Le Bon).

Há tempos queria escrever um artigo sobre Bin Laden. Mas como fui tomado pela notícia de sua morte, resolvi que não deveria mais adiá-lo. Por que queria escrever? Porque nunca acreditei que Bin Laden existisse ou, se existiu, sua existência foi ou é alimentada pela política antiterror dos Estados Unidos. Mas, podem indagar, quem sou eu para falar de política externa e, sobretudo, da política externa dos Estados Unidos? Não sou nada, nem analista político, internacional, militar, nada. Só que ainda não perdi a capacidade de pensar. E, tendo em mãos um livro defendendo o que afirmo, os que o leram ou lerem poderão me dar razão no que estou afirmando.

1984 de George Orwell é um livro que deve ser lido para que possa ser entendido o que estou dizendo. Na obra há um personagem central, mítico, abstrato, onipresente, sólido e volátil, tudo ao mesmo tempo: o Grande Irmão ou Big Brother para aqueles mais afeitos ao programa televisivo global do mesmo nome. O Grande Irmão está em todos os lugares ao mesmo tempo e o tempo todo. Sua antítese ou seu contraponto é Emanuel Goldstein: um personagem que, como Grande Irmão, é mítico, onipresente, sólido, volátil e abstrato. Ninguém, porém, os vê, só que o primeiro encarna o “bem” e o segundo “mal”. Assim mesmo, entre aspas. Do que estamos falando nestas linhas um é Bin Laden, o “mal”, e o outro os Estados Unidos, o “bem”.

O livro de Orwell, escrito em 1.948 pouco antes de sua morte, ainda que possa sugerir um anagrama numeral para o título da obra, retratou a era stalinista dos anos 30 e 40 do século passado. Um estado policial que controlava a vida das pessoas ininterruptamente, inclusive a sua privacidade.

A obra de Orwell, mais atual que nunca, retrata ainda como o Estado por ele previsto manobra e manipula a sociedade, impondo um absurdo maniqueísmo. Assim, durante quase dez anos, depois do 11 de setembro de 2.001, Bin Laden foi o inimigo público nº 1 dos Estados Unidos: o governo americano alimentou no consciente coletivo de seu povo o ódio a um personagem que ninguém sabia onde estava, o que fazia, onde morava. Apenas um rótulo: o responsável pelo atentado do 11 de setembro. O bem contra o mal.

Essa receita - identificada na Rússia stalinista por Orwell -, entretanto, vem sendo usada com eficácia de tempos em tempos na história da humanidade, bastando dar como exemplo o que Goebells fez na Alemanha nazista, quando conseguiu através de uma propaganda maciça convencer um povo culto como o alemão de que os judeus eram a essência do mal.

Não nego a existência do terror de fanáticos mulçumanos - e de tantos outros povos oprimidos e/ou subjugados ou não. Eles existem e são bem reais. Mas não podemos generalizar. Em nome dessa doutrina do grande irmão, entretanto, suprimiram-se liberdades individuais nos Estados Unidos como a criação do Patriotic Act e perpetraram-se infindáveis violações de direitos humanos em Guantanamo e Abu Ghrabi. Isso em um país com tradição secular democrática que refulgiu seus postulados ao mundo ocidental contemporâneo. Porém, com base numa afirmação de que Bin Laden era uma ameaça real a tudo a que a América havia conquistado, conseguiram impor esse engodo que, até onde se sabe, só serviu como explicação justificar a manutenção e expansão da indústria bélica norte-americana.

Balela!  Qualquer sociedade dita democrática consegue se impor a qualquer semente e prática de fanatismo terrorista. Os EUA tinham, como têm, meios para conter essa onda de terrorismo por meios legais e tecnológicos. Mas não. Depois de supostamente ter perseguido por quase dez anos Bin Laden sem encontrá-lo (como se fosse possível alguém se esconder em mundo tão pequeno e tecnologizado), eis que anunciam que o inimigo público nº 1 da América está morto.

Está? Isso pouco importa. O que importa é que continue haver um constante estado de guerra que se diz haver no já anunciado herdeiro e sucessor de Bin Laden - um tal médico egípcio Aiman não-sei-o-que - que irá continuar a cruzada terrorista contra os povos livres e civilizados do ocidente. Em um trecho de 1984, um integrante do Partido do Grande Irmão diz como devem ser os seus membros (que devem ser traduzidos como o povo): “um fanático crédulo e ignorante, cujas reações principais sejam medo, ódio, adulação e triunfo orgiástico. Em outras palavras, é necessário que tenha a mentalidade apropriada ao estado de guerra e, como não é possível uma vitória decisiva, pouco importa que a guerra vá bem ou mal. O que importa é que possa existir o estado de guerra”.

O anúncio da secretária de estado Hillary Clinton de que a morte de Bin Laden não põe fim à guerra ao terrorismo e a catarse (“triunfo orgiástico”) do povo americano que se regozijava em frente à Casa Branca comemorando a morte de seu inimigo público nº 1, não poderiam tornar mais proféticas, verdadeiras e atuais as palavras de George Orwell de que estamos - e sempre estivemos - ainda, vivendo num mundo de engodos e mentiras.

Some-se a isso as circunstâncias obscuras de sua morte, quando não se mostra o seu corpo ou mesmo uma fotografia, um exame de DNA que ninguém sabe quando e como foi feito para comprovar a identidade do Bin Laden, e, aliado ao anúncio de que seu corpo foi jogado ao mar, alimenta-se, propositadamente, a crença nos crédulos que sua alma guiará outros fanáticos da qual a América precisará se proteger. “A mentalidade apropriada ao estado de guerra”.

Leiam 1984, conheçam o seu Ministério da Verdade e terão certeza que estamos vivendo 1984.

domingo, 10 de abril de 2011

O massacre do Rio de Janeiro

Quando ocorre uma tragédia no Brasil como essa em que um rapaz de 22 anos matou a tiros 12 crianças e feriu outras tantas numa escola do Rio de Janeiro há dois dias, o país é tomado de comoção e não poucas vezes de indignação. Realmente, o que ocorreu no Rio não poderia deixar de chocar as pessoas sensíveis, mormente porque a ocorrência de fatos dessa natureza provinha de países desenvolvidos, sobretudo os Estados Unidos, jamais no Brasil.
Mas o que chamou a atenção nesse episódio foi a reação de certas pessoas públicas, em particular a dos políticos, numa verdadeira demonstração de oportunismo, demagogia e fingimento com a dor alheia, além das infindáveis explicações para o que ocorreu e as soluções para que o fato não volte a ocorrer.
O governador do Rio, Sérgio Cabral, exprimindo sua revolta com o criminoso o chamava de psicopata, de bandido, etc. Sérgio Cabral não devia esquecer que estava se dirigindo a um morto que, como todos sabem, logo após o seu ato tresloucado se matou. E, de todos os adjetivos que Sérgio Cabral lançou ao assassino somente o de psicopata lhe assenta mais adequadamente, ainda que se saiba que o governador não se dirigiu a ele nos termos técnicos a que a medicina define e classifica um psicopata. Sérgio Cabral, principalmente em razão de seu cargo, ao invés de sua cena demagógica de ofensa ao morto-louco, deveria ser mais comedido e agir como estadista, passando à população do seu Estado e do Brasil, que medidas iriam ser adotadas para se descobrir as causas de fato tão inusitado e absurdo. Sua atitude e reação se justificam na pessoa comum do povo, não na de um governador de Estado.
Já Sarney disse que o massacre equivalia a um ato de terrorismo, sem informar se esse terrorismo ao qual ele se referia dizia respeito àqueles que vêm precedidos de um componente ideológico, principalmente dos extremistas islâmicos.
Maria do Rosário, secretária dos direitos humanos, com sua proverbial hipocrisia, ensaiou um choro quando teria sabido do massacre no Rio de Janeiro ou, quem sabe, quando soube que sua chefe Dilma Roussef havia vertido lágrimas em prol das crianças mortas e feridas. Tendo ainda dois filhos pequenos, sei o quanto é doloroso para um pai ou uma mãe perder um filho nessas circunstâncias. Mas se você me perguntar se eu chorei pela morte dessas crianças eu direi que não. E por que choraria? Quando se chora em razão de algum sentimento de perda, esse choro como expressão da dor e da saudade se dá de um modo geral se a pessoa que se perde nos é próxima, bem próxima. Isso porque há um laço de afetividade que une a perda, a dor e a saudade. Quando são anônimos que morrem, ou, mesmo pessoas conhecidas que desaparecem, mas que não têm proximidade com a gente, não é possível chorar como o fizeram algumas notoriedades brasileiras.
Na esteira desses episódios, no entanto, logo vieram as mais estapafúrdias explicações e soluções para o que ocorreu no Rio de Janeiro e para que não venha mais a ocorrer. Falou-se que o massacre não teria ocorrido se a venda de armas no Brasil fosse proibida; que Wellington Oliveira foi influenciado pelos terroristas islâmicos do 11 de setembro; que cada escola no Brasil deveria ter um guarda na porta ou um porteiro, etc, etc. E não se supreendam se qualquer dia desses não aparecer um pastor dessas igrejas pentecostais que infestam o país dizendo que Wellington tinha pacto com o Diabo.
Enfim, todo mundo quis aparecer e o que não faltou foi palpiteiro. Mas, com suas exceções, faltaram reflexão, sobriedade, cautela. A primeira explicação que se deve dar ao que ocorreu na escola Darci Silveira é que, quando a pessoa que vai matar não está preocupada com a sua própria vida, não há segurança nesse mundo que proteja quem quer que seja; que quando essa pessoa é um fanático ou um desajustado mental, não há sistema que possa prever ou prevenir o seu ataque.
 As coisas e sistemas deste nosso melhor dos mundos são feitas para proteger e prever fatos previsíveis e a tragédia do Rio de Janeiro não estava nesse rol.
Wellington Oliveira era filho de uma mãe neurótica ou esquizofrênica, sendo adotado na infância. Tinha uma vida de quase reclusão, com poucos amigos e de uma introspecção que o levava a viver uma vida virtual no computador e alimentando um sentimento de rejeição pela sociedade. Esse lobo da estepe um dia entrou na selva e fez o que fez. E na fila desse rapaz, podem estar certos, há muitos Wellingtons prontos para explodir.
Além de medidas protetivas, ao invés desse açodamento de se buscar soluções imediatistas, esse caso deveria ser objeto de estudos por psiquiatras e psicólogos e servir de alerta que o Brasil não tem uma política pública para tratar os seus loucos e portanto passar a pensar nisso seriamente.